Tratamento do componente cultural

Por que o componente cultural foi integrado aos demais conteúdos em Español Hoy? Acreditamos que o tratamento da cultura represente, em alguma medida, “o ponto fraco” na elaboração dos materiais didáticos para o ensino de línguas estrangeiras. Parece inegável que língua e cultura são dois elementos intrinsecamente ligados quando se ensina/aprende uma língua, materna ou estrangeira. No entanto, as iniciativas para tentar concretizar essa relação nos materiais didáticos nem sempre obedecem a critérios coerentes e bem fundamentados.

Na maioria dos métodos que circulam hoje em dia pelo mercado editorial no campo de ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras, a cultura e o componente cultural são abordados em uma seção específica, como elementos de caráter acessório. Trata-se de um antigo hábito oriundo da tradição de langue et civilisation, própria do ensino da língua francesa, tão em moda a partir de meados do século XIX e começo do século XX. Como conseqüência, na referida seção esses materiais apresentam uma seleção de textos, geralmente literários, escolhidos entre os autores clássicos mais renomados, com o propósito de trabalhar na sala de aula a chamada cultura com C maiúsculo. Ao lado da literatura, também costumam figurar os grandes expoentes das artes, sobretudo da pintura e da música.

Desde o surgimento do enfoque comunicativo, houve grandes esforços para romper essa visão da “cultura com maiúsculas” e, ao mesmo tempo, tentar incorporar uma “cultura com minúsculas”, ou seja, todos aqueles elementos que representam o modo de ser característico dos povos, seus valores, costumes e tradições. Esse movimento gerou, inegavelmente, maior amplitude temática e melhor compreensão dos fenômenos culturais; entretanto, em muitos casos, modelou-se uma visão do componente cultural marcada em excesso pelos tópicos e pelos estereótipos.

Por outro lado, no caso concreto do ensino de ELE, dada a riqueza das variantes lingüísticas do mundo hispânico, essas tentativas de busca de uma maior aproximação da “cultura com minúsculas” ocasionaram um tratamento do léxico que, a nosso ver, resulta inadequado. Estamos nos referindo a uma verdadeira “proliferação” de listas de vocabulário com as diversas variantes de pronúncia nos diferentes países que fazem parte da cultura hispânica, o que produz, na sala de aula, a falsa impressão de uma extrema complexidade: a de que os aprendizes, para dominar o espanhol, terão, forçosamente, de conhecer a fundo todas as suas variantes.

Outra forma de inclusão dos aspectos culturais costuma ser a reprodução, muitas vezes descontextualizada, de fragmentos de textos (orais ou escritos) que discorrem sobre determinada prática cultural própria de um país ou de uma região hispânica, comparada à de outro país. O que se destaca nesse tipo de tratamento da cultura é uma visão do exótico, com a qual os aprendizes não conseguem implicar-se enquanto sujeitos da sua própria cultura, uma vez que se estimula uma atitude de “assimilação cultural” em vez de uma prática de “diálogo intercultural”.

Nos últimos anos, muitos educadores e pesquisadores no campo de ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras vêm chamando a atenção para a vigência do fenômeno do multiculturalismo, cada vez mais presente nas diversas culturas do mundo, e para a importância de uma educação de jovens e adultos que os prepare para situar-se em um mundo a cada dia mais globalizado e intercultural. Parece indiscutível que os conteúdos programados para ensinar/aprender uma língua estrangeira sejam um veículo importantíssimo para apoiar um trabalho de conscientização e gerar no espaço da sala de aula uma atitude de compreensão crítica de si mesmo e do outro. Para tal, não acreditamos que seja necessário tratar a cultura como algo esporádico e destacável das convergências e divergências vividas no âmbito cultural, produzidas ao longo do processo de construção lingüística por parte dos aprendizes de uma língua estrangeira.

Redigido por Ana Lúcia Esteves dos Santos