CAPÍTULO 3 - Geopolítica e economia do período pós-segunda guerra
A Doutrina Bush

 
 
Doutrina Bush foi gerada há dez anos
 

A Doutrina Bush de segurança nacional foi recebida pela imprensa nos Estados Unidos e em praticamente todo o mundo como uma inovação importante na história das relações internacionais. A palavra-chave é “antecipação”: os Estados Unidos a partir de setembro de 2002, com a adoção da nova Estratégia de Segurança Nacional, se dizem resolvidos a atacar com antecedência qualquer inimigo que julguem capaz de ameaçá-los.

Embora seja de fato uma novidade, se comparada às doutrinas Truman e Eisenhower, que regeram o comportamento estratégico americano durante a Guerra Fria, nas quais os conceitos de “contenção”, “dissuasão” e “reversão” sucessivamente definiram o comportamento militar do país, o documento que George W. Bush enviou ao Congresso é quase idêntico ao formulado pela equipe que agora o assessora quando ela estava a serviço de seu pai, George H. Bush, dez anos atrás.

Em 1992, o atual vice-presidente, Dick Cheney, era secretário da Defesa; o atual secretário de Estado, Colin Powell, era chefe do Estado-maior das Forças Armadas; o atual secretário adjunto da Defesa, Paul Wolfowitz, era subsecretário da Defesa; o atual vice-chefe do Estado-maior das Forças Armadas, Lewis Libby, era o principal assessor de Wolfowitz; o atual assessor de Segurança Nacional do vice-presidente, Eric Edelman, era outro subsecretário de Defesa. O atual secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, estava fora do governo, mas mantinha as suas antigas relações de amizade com o clã Bush, em especial com Cheney, seu colega durante a administração do presidente Gerald Ford.

Esse grupo, com o fim da Guerra Fria e o sucesso aparente da Guerra do Golfo, tentou emplacar a noção de que os Estados Unidos deveriam adotar uma posição de unilateralismo e prevenção de ataques como política formal do governo. Dois documentos do gabinete do secretário da Defesa datados de 1992 e um de janeiro de 1993 têm enormes semelhanças com o que George W. Bush enviou ao Congresso em setembro de 2002.

Evidentemente, como Bush pai perdeu a eleição de novembro de 1992 para Bill Clinton [...] esses documentos foram arquivados pela administração democrata. Mas o grupo, com exceção de Powell (que manteve seu cargo nos primeiros anos do governo Clinton), se manteve ativo na formulação de críticas à política de defesa do sucessor de George H. Bush.

 
George W. Bush discursa em cerimônia realizada na Casa Branca em novembro de 2003 antes de assinar pacote de US$ 87,5 bilhões para o Iraque e o Afeganistão. Ladeando o presidente norte-americano, o Secretário de Estado Colin Powell (esquerda) e pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld (direita).
Brooks Kraft/Corbis
 
 
Os debates internos na equipe de segurança nacional americana de dez anos atrás, registrados em atas que o jornalista David Armstrong revelou em recente artigo (“Dick Chenney’s Song of América”, Harper’s, October 2002, p.76-83), mostram que as divergências entre Colin Powell e os demais integrantes do time, como agora, já ocorriam há uma década com grande intensidade.

Cheney não estava convencido da persistência das mudanças em curso na União Soviética (depois Rússia) a partir da queda do Muro de Berlim em 1989; suas desconfianças o motivavam a desejar manter ou ampliar as verbas militares americanas infladas durante a Guerra Fria. Powell, embora também desejasse evitar cortes orçamentários, sabia que eles eram inevitáveis e não considerava mais a União Soviética e, depois, a Rússia, uma ameaça. Portanto, resolveu lutar para minimizar as perdas nos gastos com defesa.

Powell defendia o princípio, depois adotado por Bush pai e Clinton, de que os Estados Unidos deveriam manter menos tropas em mais regiões do mundo, para lidar de modo eficaz com conflitos regionais, que necessitariam do arbítrio dos Estados Unidos, única superpotência remanescente, que — nesta visão — estava relativamente imune a ataque contra sua integridade nacional. Também de Powell foi a noção de que os Estados Unidos só deveriam realizar ações militares quando sua superioridade fosse esmagadoramente superior à dos adversários, e a possibilidade de vitória quase absoluta.

Wolfowitz, por sua vez, conseguiu incluir no Defense Planning Guidance [Guia de Planejamento de Defesa} para os anos fiscais de 1994-1999 (apresentado por Cheney ao presidente Bush em 1992) a idéia de que os Estados Unidos deveriam estar prontos para realizar ações militares antecipatórias para prevenir ataques nucleares, químicos ou biológicos e para punir potenciais agressores por uma variedade de meios, inclusive bombardeios aéreos sobre fábricas de armas.

O DPG, como o documento é conhecido, também afirma a necessidade de os Estados Unidos manterem um grande arsenal nuclear e, ao mesmo tempo, impedirem outros países de desenvolverem armas desse tipo.

Além disso, deixa claro que — embora seja desejável que os Estados Unidos tentem sempre formar coalizões com outros países para suas iniciativas militares — é essencial criar na opinião pública americana “o sentimento de que a ordem mundial é defendida em última instância pelos Estados Unidos (...) e de que a América deve se posicionar para agir independentemente quando as ações coletivas não possam ser orquestradas ou quando situações de crise exigirem ação imediata”. A semelhança com a racionalidade e a própria formulação final da Doutrina Bush é notável.
 
REVISTA política externa v. 11, n. 34. São Paulo: Paz e Terra/GACINT-USP/IEEI., dez.-fev. 2002-3. p. 50-2.
 
 
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