| CAPÍTULO
3 - Geopolítica e economia do período pós-segunda
guerra |
O termo “terceiro mundo”
foi utilizado pela primeira vez pelo demógrafo francês
Alfred Sauvy, que escreveu um artigo, publicado em 1952, no qual fez
uma comparação entre os países subdesenvolvidos,
no pós-guerra, e o Terceiro Estado, na época da Revolução
Francesa. Concluiu o artigo intitulado “Três Mundos, um
planeta” com a seguinte frase: “Pois enfim esse Terceiro
Mundo, ignorado, explorado, desprezado, tal como o Terceiro
Estado, também quer ser alguma coisa”. Sauvy parafraseou
a frase do Abade de Sieyès (político francês simpatizante
do movimento revolucionário), que em 1789, ao se referir ao grupo
de deputados eleitos pela burguesia e pelos camponeses, qualificou esse
grupo de Terceiro Estado, em contraposição à Nobreza
(Primeiro Estado) e ao Clero (Segundo Estado). No período da Guerra Fria (1947-1989) era comum classificar os Estados nacionais em um dos “três mundos”: o primeiro formado por países capitalistas desenvolvidos, sob a liderança dos Estados Unidos; o segundo composto pelos países socialistas, sob a liderança da União Soviética e o terceiro integrado pelos países subdesenvolvidos, capitalistas em sua maioria, mas também por alguns socialistas não alinhados com a então superpotência socialista. As nações do “terceiro mundo” localizavam-se na Ásia, na África, a maioria recém-independente, e na América Latina. Após a Conferência de Bandung, realizada em 1955, na Indonésia, o termo “terceiro mundo” ganhou conotação política e passou a ser identificado como terceira via de desenvolvimento para os países recém-independentes da Ásia e da África, como alternativa ao capitalismo norte-americano e ao socialismo soviético. Essa conferência lançou as bases do movimento dos países não-alinhados. Desde a queda do Muro de Berlim em 1989 e do desmembramento da União Soviética em 1991, não se pode mais falar em Guerra Fria. Acabou o conflito Leste — Oeste, a bipolarização do mundo. Portanto o “segundo mundo”, que era liderado pela antiga superpotência socialista, não existe mais. Assim, atualmente não tem sentido empregar os termos “primeiro” e “terceiro” mundos, que, entretanto, continuam a ser usados. Como poderíamos definir, então, “terceiro mundo” na era da globalização? Muitos estudiosos acham essa questão inútil, argumentando que o “terceiro mundo” não existe mais. Se não existe, por que ainda continuam a mencioná-lo? Com o surgimento dos países de industrialização recente, denominados emergentes? como Brasil, México, Argentina, China, Tigres Asiáticos e África do Sul — e ao mesmo tempo com a enorme estagnação de quase toda a África, sobretudo a parte subsaariana, e de vastas regiões da Ásia e da América Latina, o “terceiro mundo” ficou heterogêneo. Desde os anos 1970, tem havido uma enorme diferenciação interna nesse bloco de países, como se pode constatar pela análise dos indicadores de desenvolvimento humano. No atual capitalismo informacional-global, “terceiro mundo” tornou-se sinônimo de subdesenvolvimento. Passou a identificar os problemas inerentes ao subdesenvolvimento, como atraso econômico, miséria, desigualdade social, baixos indicadores de desenvolvimento e desrespeito aos direitos humanos e à democracia. Em contrapartida, “primeiro mundo” identifica as características típicas do mundo desenvolvido, como bons indicadores econômicos, sociais e políticos, avanço tecnológico e qualidade de vida, de produtos e de serviços. Entretanto não devemos nos esquecer de que dentro do “primeiro mundo” tem crescido uma porção “terceiro mundo”, pois os índices de desigualdade social, marginalização e pobreza têm aumentado. Logo após o término da Segunda Guerra terminou, o fato de pertencer ao “terceiro mundo” engrandecia os países, surgindo até um movimento terceiro-mundista, sinônimo de não-alinhamento. Hoje em dia, entretanto, esse termo é depreciativo e nenhum país quer se identificar com essa realidade. Todos querem estar no “primeiro mundo”. No entanto, é inviável todos os países serem desenvolvidos, seja por razões econômicas — o capitalismo gera desigualdades —, seja por razões ecológicas — os recursos naturais não suportariam toda a humanidade consumindo como os Estados Unidos, a Europa e o Japão. Portanto é prudente utilizar as expressões “primeiro mundo” e “terceiro mundo” entre aspas para evidenciar a fragilidade dessa classificação nos dias de hoje, sobretudo porque essa divisão é datada historicamente. Fazia sentido na época do conflito Leste x Oeste, não no mundo pós-Guerra Fria, marcado pela globalização e pela fragmentação. |
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