CAPÍTULO 9 - Os países emergentes
As principais crises dos países emergentes
  - A crise mexicana

 
O México, que já tinha sido o primeiro país a sucumbir à crise da dívida na década de 1980, foi novamente o primeiro a sucumbir à globalização financeira da década seguinte. A crise de 1994-95 deveu-se à saída dos capitais especulativos, reduzindo de maneira rápida e drástica as reservas de dólares do país, o que provocou instabilidade em suas contas externas e acentuada desvalorização da moeda nacional (o peso). Um dos problemas mais graves da economia mexicana era o desequilíbrio em sua balança comercial. Em 1990 o país apresentou um déficit de 882 milhões de dólares, o qual, em 1993, subiu para 13,5 bilhões de dólares. Esse montante já tinha sido praticamente atingido nos nove primeiros meses de 1994, o que precipitou a crise. Para fechar seu balanço de pagamentos, o governo mexicano passou a recorrer a capitais especulativos por meio do aumento da taxa de juros de seus títulos públicos.

O início das operações dos guerrilheiros do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em janeiro de 1994, somou a instabilidade política aos desequilíbrios econômicos pelos quais passava o país (leia o boxe para saber mais sobre os zapatistas). Assim, criou-se um ambiente de profunda insegurança que acabou afugentando os investidores de curto prazo, os quais passaram a vender seus bônus do Tesouro e a retirar o dinheiro do México, levando o país a uma grave crise, como se pode constatar pela leitura, a seguir, do texto Da primeira à segunda crise mexicana. Nesses casos, em geral, os investidores trocam rentabilidade por segurança: passam a comprar bônus do Tesouro dos Estados Unidos, que pagam baixas taxas de juros, mas que são um dos investimentos mais seguros do mundo.
 
 
O que é o Exército Zapatista
 

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) é um grupo guerrilheiro constituído predominantemente por indígenas de diversas etnias. Sua base está no estado de Chiapas, sul do México, um dos mais pobres do país. Os zapatistas reivindicam maior autonomia política e direitos sociais e econômicos para os indígenas mexicanos. No início de 1994, o grupo deu início à luta armada, mas depois dos combates iniciais contra as forças militares mexicanas, vem optando pela negociação para atingir seus objetivos. Seu líder máximo é o subcomandante Marcos (é denominado “sub” porque, segundo os zapatistas, quem comanda a revolução é o povo). Em 2001, militantes do EZLN realizaram uma marcha de três mil quilômetros, de Chiapas até a Cidade do México, para pressionar o governo a aprovar a Lei de Direitos Indígenas. No entanto, a lei aprovada pelo Congresso sofreu tantas modificações que acabou sendo rechaçada pelos zapatistas, e as negociações entraram num impasse.

Da primeira à segunda crise mexicana
 
Em 1982, o Estado mexicano estava endividado com os bancos internacionais, que lhe haviam concedido empréstimos de médio prazo. A crise foi provocada pela incapacidade do México de fazer face ao pagamento dos juros e ao reembolso de uma fração do principal desta dívida [...]

Para o México, a incapacidade de cumprir seus compromissos abriu o caminho para uma subordinação cada vez mais estreita de sua economia à dos Estados Unidos, cujo desfecho foi a assinatura do tratado de livre-câmbio do Nafta [...]

Na sua primeira fase, a crise foi marcada e ampliada por uma saída maciça de capitais nacionais. Estes foram os primeiros a converter seus bens em dólares, logo que foi anunciado o primeiro "reajuste" na cotação da moeda nacional, acentuando assim a sua queda. O FMI (1995, p. 7) estima que os capitalistas mexicanos poderiam ser responsáveis por mais de dois terços da queda das reservas de câmbio que ocorreu em dezembro de 1994. No essencial, a retirada dos capitais externos aplicados no mercado de bônus, sob a forma de compra de bônus do Tesouro, bem como de investimentos de carteira na Bolsa do México, foi feita de forma ordenada em janeiro e início de fevereiro.

A crise mexicana ilustra o papel desempenhado, na integração financeira, pelas operações ditas "de arbitragem", efetuadas por operadores financeiros que possuem meios financeiros suficientemente amplos para poder escolher, a todo momento, as formas mais vantajosas de aplicação e de especulação oferecidas, mesmo que estas comportem um risco elevado, mas também para liquidar suas posições muito rapidamente. [...] As vendas de bônus do Estado, ocorridas no México em janeiro, fizeram parte de estratégias normais de reorientação de investimentos, depois do vencimento de aplicações que haviam se tornado muito arriscadas, mas que haviam rendido bons benefícios.

O afundamento brutal do "mercado financeiro emergente" (que ainda poucas semanas antes do crash era chamado de "exemplar") se desenvolveu assim cumulativamente, desencadeando em menos de um mês o início de uma recessão que se aprofundou de mês a mês. No ano de 1995 houve uma queda do PIB de 7% e uma taxa de inflação próxima de 50%. O desemprego chegou aos 25% da população ativa, enquanto os salários sofriam uma perda de poder de compra na ordem de 55% e dois milhões e meio de pessoas cruzaram o limiar da "pobreza extrema".
 
CHESNAIS, François. Mundialização financeira e vulnerabilidade sistêmica. In: CHESNAIS, François (Coord.). A mundialização financeira: gênese, custos e riscos. São Paulo: Xamã, 1998. p. 286-9.
François Chesnais é economista e professor da Universidade de Paris XIII.
 
 
O mesmo cenário econômico repetiu-se na Ásia em outubro de 1997, na Rússia em agosto de 1998, no Brasil em janeiro de 1999 e na Argentina em 2001-02.
 
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