CAPÍTULO 1 - Industrialização brasileira
As teorias de desenvolvimento e crescimento econômico vigentes no Brasil na primeira metade do século XX

 
O governo Dutra e a eleição de Getúlio

Em 1946, após a deposição de Vargas, assumiu a presidência o general Eurico Gaspar Dutra, que instituiu o Plano Salte, destinando investimentos aos setores de saúde, alimentação, transportes, energia e educação. Até 1950, quando terminou seu mandato, o Brasil passou por grande incremento da capacidade produtiva.

Durante a Segunda Guerra, o país exportou diversos produtos agrícolas, industriais e minerais para os países europeus em conflito, obtendo enorme saldo positivo na balança comercial. Esse saldo, porém, foi utilizado no decorrer do governo Dutra, com a importação de máquinas e equipamentos para as indústrias têxteis e mecânicas, com o reequipamento do sistema de transportes e com o incremento da extração de minerais metálicos, não-metálicos e energéticos.

Além disso, houve forte mudança na política econômica do país com a abertura à importação de bens de consumo, o que contrariava os interesses da indústria nacional, que defendia a reserva de mercado. Boa parte das reservas cambiais acumuladas ao longo da Segunda Guerra foram utilizadas na importação de chicletes, pastas de dentes, geladeiras, óleos lubrificantes, chocolates, brinquedos, artigos decorativos e muitos outros produtos que agradavam à classe média. Ao utilizar as reservas, essa mudança obrigou o governo a desvalorizar a moeda nacional em relação ao dólar e emitir papel-moeda, o que levou à inflação e conseqüente queda de poder aquisitivo dos salários.

Leia, no texto a seguir, as três teorias de desenvolvimento que embasavam, na primeira metade do século XX, o debate político sobre o crescimento econômico. Note que há muitas semelhanças com as idéias discutidas atualmente.
 
 

Leia, no texto a seguir, as três teorias de desenvolvimento que embasavam, na primeira metade do século XX, o debate político sobre o crescimento econômico. Note que há muitas semelhanças com as idéias discutidas atualmente.

Fórmulas para o crescimento
 
A era de Dutra havia presenciado os começos de um vigoroso debate sobre a estratégia do desenvolvimento. Surgiram três fórmulas principais: a neoliberal, a desenvolvimentista-nacionalista e a nacionalista radical. Nenhuma dessas posições representava uma estratégia detalhada. Ao invés, cada uma delas era uma combinação de diagnósticos e de recomendações de medidas gerais.

A fórmula neoliberal baseava-se na suposição de que o mecanismo de preços deveria ser respeitado como a determinante principal da economia. As medidas fiscais e monetárias, bem como a política de comércio exterior, deveriam seguir os princípios ortodoxos estabelecidos pelos teóricos e praticantes da política de banco central dos países industrializados. Os orçamentos governamentais deveriam ser equilibrados e as emissões severamente controladas. O capital estrangeiro deveria ser bem recebido e estimulado como ajuda indispensável para um país falto de capitais. As limitações impostas pelo governo ao movimento internacional do capital, do dinheiro e dos bens, deveriam ser reduzidas ao mínimo.

[...]

A segunda fórmula era a desenvolvimentista-nacionalista [...]. A nova estratégia deveria visar uma economia mista, na qual o setor privado recebia novos incentivos, na proporção de um determinado número de prioridades de investimento. Ao mesmo tempo, o Estado interviria mais diretamente, através das empresas estatais e das empresas de economia mista, no sentido de romper os pontos de estrangulamento e assegurar o investimento em áreas nas quais faltasse, ao setor privado, quer a vontade, quer os recursos para se aventurar. Os defensores dessa fórmula reconheciam que o capital privado estrangeiro poderia desempenhar um papel importante, mas insistiam em que só fosse aceito, quando objeto de cuidadosa regulamentação pelas autoridades brasileiras.

A fórmula desenvolvimentista-nacionalista foi apresentada por um grupo pequeno mas variado. O seu denominador comum era um forte nacionalismo. Muitos oficiais do exército, por exemplo, achavam que o Brasil só se poderia tornar uma grande potência, caso desenvolvesse a indústria. Além disso, a segurança nacional do Brasil exigia que a exploração de recursos naturais, tais como combustíveis, força hidrelétrica e recursos minerais, se mantivessem a salvo de mãos estrangeiras.

[...]

A terceira fórmula era a do nacionalismo radical. Merece menos atenção que as outras duas, como fórmula econômica, porque foi apresentada mais dentro de um espírito de polêmica política, do que como estratégia cuidadosamente pensada para o desenvolvimento. Na realidade, a posição do nacionalismo radical baseava-se na suposição de que a estrutura social e econômica vigente era “de exploração” e exigia mudança radical. Os nacionalistas radicais atribuíam o subdesenvolvimento brasileiro a uma aliança natural de investidores particulares e governos capitalistas, dentro do mundo industrializado. Essa conspiração procurava limitar o Brasil eternamente a um papel subordinado, como exportador de produtos primários, cujos preços eram mantidos em níveis mínimos, e importador de bens manufaturados, cujos preços eram mantidos em níveis exorbitantes, por organizações monopolistas.
 
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930–1964). 7 ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1982. p. 117-120.
Thomas Skidmore é diretor do Centro de Estudos da América Latina da Brown University, Estados Unidos.
 
 
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