Da década
de 1960 até 1994, quando foi implantado o Plano Real,
a economia brasileira apresentou índices bastante
elevados de aumento de preços, ou seja, de inflação.
Nesse período, havia forte transferência de
renda da população pobre para as classes média
alta e alta. Mas como é que a inflação
concentra renda, quais são os mecanismos responsáveis?
Em primeiro lugar, os índices de inflação
nunca foram integralmente repassados aos salários.
Por exemplo, se a inflação era de 50%, os
salários eram reajustados em 40%, reduzindo o poder
aquisitivo dos trabalhadores e aumentando a margem de lucro
dos empresários ? concentração de renda.
Mesmo que o índice de reajuste dos salários
fosse de 50%, continuaria havendo transferência ou
concentração de renda porque, em 1994, 80%
dos trabalhadores brasileiros recebiam até três
salários mínimos mensais (índice que
permanecia praticamente inalterado em 2004) e não
possuíam conta em banco. Não podiam, portanto,
investir e proteger seu salário no mercado financeiro
para manter o poder de compra do seu dinheiro.
Até essa época, nos dias de pagamento de salários
(em geral, o quinto dia útil de cada mês),
os supermercados eram invadidos pela população
de baixa renda, que comprava tudo o que seu dinheiro permitisse,
porque se deixassem suas compras para a semana seguinte,
comprariam uma quantidade menor de alimentos. Os preços
subiriam, mas o valor do dinheiro não seria reajustado.
Em fevereiro de 1990, o índice de inflação
atingiu a marca de 84% ao mês, ou seja, quase 3% ao
dia; em março de 1994, quando foi implantado o Plano
Real, a inflação mensal era de 28%. Nessa
época, os 80% das famílias brasileiras que
não tinham dinheiro aplicado em bancos sofriam uma
enorme perda de poder aquisitivo.
Há várias entidades que divulgam índices
de inflação, como a Fipe/USP (Fundação
Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade
de São Paulo), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística), a FGV (Fundação Getúlio
Vargas), entre outras. Cada uma adota uma metodologia de
cálculo própria. Por exemplo, pode-se medir
a inflação nos distribuidores atacadistas
ou no varejo, para as diferentes classes de renda mensal
e até mesmo para as diferentes regiões do
país.
Na prática, o índice de inflação
não é o mesmo para as diferentes faixas de
renda. Por exemplo, se o preço dos alimentos subir,
o índice será maior para a população
de baixa renda, pois a alimentação tem um
peso maior em suas despesas mensais. Por outro lado, se
subir das passagens aéreas e dos automóveis,
as classes mais abastadas serão mais atingidas.
Além de existirem diferentes metodologias para o
cálculo do índice de inflação,
ele é composto por muitas variáveis: alimentação,
moradia, transportes, vestuário, educação,
saúde, lazer, serviços públicos (saneamento,
eletricidade, telefone, etc.), que são as mais importantes.
Visto isso, vamos comparar o efeito da inflação
para duas pessoas: uma que ganha R$ 600,00 por mês
e outra com salário de R$ 6 000,00. Para simplificar
a comparação e facilitar o entendimento, vamos
considerar apenas o efeito do item alimentação
nessas duas faixas de renda.
A pessoa que ganha R$ 600,00 gasta, aproximadamente, R$
200,00, ou 33,3% do seu salário com alimentação
(feira, supermercado, padaria etc.). Quem ganha R$ 6 000,00
pode gastar, por exemplo, quatro vezes mais, R$ 800,00,
mas mesmo assim, despenderia apenas 13,3% da sua renda mensal.
Se os gastos com alimentação sofrerem um aumento
de 50%, o índice de inflação será
de 16,6% para quem ganha R$ 600,00 (em vez de gastar R$
200,00, gastaria R$ 300,00, ou seja, R$ 100,00 a mais: R$
100,00/600 x 100 = 16,6%), mas apenas 6,65% para quem ganha
R$ 6 000,00.
Como o governo divulgava um único índice de
inflação, válido para todas as faixas
de renda, em todo o território nacional, saía
perdendo quem ganhava menos. Suponha que o governo divulgasse
um índice médio de 11,6%, o qual fosse utilizado
para reajuste salarial. O que aconteceria? O mais pobre
teve uma inflação de 16,6% e seu salário
foi reajustado em 11,6% — perdeu poder aquisitivo,
ficou mais pobre. Já o que ganha mais teve uma inflação
de 6,6% e seu salário também foi reajustado
em 11,6% — aumentou seu poder aquisitivo. Imagine
isso acontecendo todos os meses do ano, vários anos
seguidos, e perceba o desastre provocado na distribuição
da renda nacional entre as diferentes faixas de renda.
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