CAPÍTULO 1 - O espaço urbano do mundo contemporâneo
As cidades no capitalismo comercial e industrial

 
Com o advento do capitalismo em fins do século XV, ainda em sua etapa comercial, a cidade voltou a ser o centro de trocas, pois o comércio tinha como objetivo fundamental a acumulação de capitais. Não imperava mais o escambo (a troca de um produto por outro) ou mesmo a venda de produtos para a imediata aquisição de outros mais necessários. Em vez disso, passou-se a comprar coisas que pudessem ser vendidas por um preço maior, com a finalidade de obter lucro, ou seja, as coisas passaram a ser mercadorias. A partir daí, a cidade voltou a ser o lugar privilegiado para a realização do comércio e a urbanização foi ganhando cada vez mais impulso.

Outro impulso fundamental à urbanização foi a volta do poder político às cidades. Com a progressiva centralização política dos Estados nacionais absolutistas, as capitais voltaram a ser o lugar do poder, novamente polarizando o domínio de grandes porções territoriais, a ser centros culturais, satisfazendo a necessidade de ilustração da nobreza e da burguesia ascendente. Assim, as capitais dos países adquiriram grande força econômica, política e cultural.

Muitas cidades comerciais surgiram em torno dos castelos e das igrejas, no interior das muralhas, nos burgos, onde os comerciantes buscavam proteção durante suas longas viagens, particularmente na fase final do feudalismo. Com a expansão do comércio e a conseqüente concentração populacional, os burgos acabaram estendendo-se para além dos limites das muralhas, num crescimento concêntrico.
 
Na Europa, é comum encontrar preservados, em muitas cidades de origem medieval, restos de muralhas, em geral portas de entrada. Algumas dessas cidades até hoje conservam seu núcleo original. Na foto, de 2001, parte da muralha medieval de Toledo, Espanha, às margens do Rio Tajo.
Anna Hernandez/Editora Abril]
 
 
O capitalismo, portanto, surgiu na cidade, ligado à busca de acumulação de capitais por meio do comércio, e impulsionou o surgimento de muitos outros núcleos. Com isso, foi se constituindo uma rede de cidades ao longo das rotas comerciais, o que exigiu o gradativo aperfeiçoamento do sistema de transportes.
 
AS CIDADES NO CAPITALISMO INDUSTRIAL

O início de um processo de urbanização verdadeiramente consistente, com uma grande expansão das cidades, só veio a ocorrer com o advento da industrialização e a conseqüente necessidade de concentração da produção.

Mas é importante que se faça uma ressalva: a cidade não é um fenômeno criado pelo capitalismo. Ela precede esse sistema econômico, como foi visto no início deste capítulo, embora ele seja o grande responsável por um processo de urbanização que ainda está em curso.

Outra associação de causa-efeito que costuma ser feita, mas que nem sempre é verdadeira, é a do desenvolvimento das cidades e da indústria. No entanto, é inegável que, sob o capitalismo industrial, a cidade ganhou um impulso sem precedentes na história e, visivelmente, modificou-se. A partir de fins do século XVIII, as cidades que mais cresceram foram as industriais. Mesmo aquelas que tinham outra função, seja político-administrativa, seja de infra-estrutura (fornecimento ou recebimento de matérias-primas, por exemplo) mas que davam suporte à industrialização , cresciam. Entretanto, se isso foi verdade na fase industrial e mesmo financeira do capitalismo, não é mais na fase atual, a informacional, como veremos no próximo capítulo.

O capitalismo industrial, pela necessidade de produzir ao menor custo possível, precisou concentrar pessoas em áreas reduzidas do espaço geográfico. Nesse estágio do desenvolvimento capitalista, já havia um considerável avanço produção industrial, que exigia uma aglomeração de pessoas e de infra-estrutura transporte, energia, comunicação etc. Ao mesmo tempo, já havia uma grande capacidade de produção de alimentos para abastecer as aglomerações urbanas em crescimento, acentuando a divisão do trabalho entre campo e cidade. O excerto abaixo ilustra bem essas afirmações.
 
 
Urbanização e industrialização
 

Se a revolução manufatureira se orientou, pelo menos em seu princípio, contra a cidade, conquistando-a, de fora para dentro, a revolução industrial teve por palco, desde o início, a área urbana.

[...]

O resultado deste processo — a moderna unidade de produção, a fábrica — é necessariamente um fenômeno urbano. Ela exige, em sua proximidade, a presença de um grande número de trabalhadores. O seu grande volume de produção requer serviços de infra-estrutura (transportes, armazenamento, energia etc.), que constituem o cerne da moderna economia urbana. Quando a fábrica não surge já na cidade, é a cidade que se forma em volta dela. Mas é, em ambos os casos, uma cidade diferente. Em contraste com a antiga cidade comercial, que impunha ao campo o seu domínio político, para explorá-lo mediante uma intrincada rede de monopólios, a cidade industrial se impõe graças à sua superioridade produtiva. A burguesia industrial toma o poder na cidade em nome do liberalismo e varre para fora do cenário a competição das formas arcaicas de exploração. O capital comercial perde seus privilégios monopolísticos e acaba se subordinando ao capital industrial, reduzido ao papel de mero intermediário.

Quando se dá a Revolução Industrial, a economia mundial, no sentido de uma ampla divisão internacional do trabalho que abrange cidade e campo de múltiplos países, já estava dada. Nesta economia mundial, a posição dos vários países não era a mesma. O acesso ao mercado externo de cada país dependia do seu poder político, sobretudo de sua capacidade de monopolizar colonialmente territórios no além-mar e de dominar rotas marítimas. Neste sentido, a Grã-Bretanha desponta, no fim do século XVIII, como a potência líder da economia mundial. É o domínio inglês de uma ampla gama de mercados externos, a condição chave da Revolução Industrial, que se inicia naquele país.”

 
SINGER, Paul. Economia política da urbanização. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2002. p. 22-3.
 
 
O que se depreende do texto é que as cidades ganharam fundamental importância durante o capitalismo industrial, por reforçarem o papel de centro do poder político e econômico, por serem o centro de troca e, diversamente da cidade comercial, agora também da produção de mercadorias notadamente as capitais de Estado, como já mencionado. É o caso particular de Londres, capital do Reino Unido, maior cidade do mundo e sede do maior império colonial dos séculos XVIII e XIX, desde então já uma cidade multifuncional.
 
 
Londres, capital do mundo
 

Londres já tinha meio milhão de habitantes em 1660, numa época em que a segunda maior cidade, Bristol, contava cerca de 30 mil. De 1700 a 1820, a população chegou a 1 250 000. A centralização do poder político; a substituição do feudalismo por uma aristocracia rural e, em seguida, por uma burguesia rural, com todos os efeitos subseqüentes sobre a modernização da terra; o desenvolvimento extraordinário de um comércio mercantil: esses processos notáveis haviam ganhado um irresistível impulso no decorrer do tempo — uma concentração e uma demanda que alimentavam a si próprias. A cidade do século XIX, na Grã-Bretanha como em outros lugares, seria uma criação do capitalismo industrial.

 
WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 205.
 
 
Londres desempenhou para o Império Britânico o mesmo papel que Roma desempenhara para o Império Romano. Nesse sentido, “todos” os caminhos do Império Britânico também levavam a Londres. Ocorre que essa cidade não foi somente um centro político-administrativo, econômico e cultural como era Roma. Muito mais que isso, foi, e continua sendo, uma cidade industrial, portuária e um importante centro financeiro, ou seja, a cidade moderna, inserida numa economia muito mais complexa, possui funções bem mais diversificadas do que a cidade antiga ou medieval.
Além disso, Londres influenciava o campo britânico e uma série de cidades tipicamente industriais que foram surgindo nas regiões carboníferas do país, como Liverpool, Manchester, Birmingham, Leeds, Glasgow e Bristol. Influenciava ainda vastos territórios (cidade e campo), que davam suporte à produção industrial britânica, em várias regiões do globo. Londres foi, portanto, a “capital do mundo” durante o capitalismo industrial.

 
Londres foi o centro do mundo durante os séculos XVIII e XIX. É compreensível que muitos mapas-múndi tenham o seu centro de projeção no meridiano de Greenwich, que passa pela capital britânica. Na foto, de 2002, o Big Ben, cartão postal da cidade.
Wagner Santos/Kino
 
 
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