CAPÍTULO 3 - Clima
Movimentos em defesa do meio ambiente e a destruição da camada de ozônio

 
Estocolmo-72: a tomada de consciência

Todos os impactos ambientais são causados por um modelo de desenvolvimento, tanto capitalista como socialista (enquanto este existiu), que encarava a natureza e seus complexos e frágeis ecossistemas apenas como “inesgotáveis” fontes de energia e de matérias-primas e como receptáculo dos dejetos produzidos por suas cidades, indústrias e atividades agrícolas. Todos esses impactos, na verdade, foram provocados porque a natureza era vista apenas como fonte de lucros, de enriquecimento.

O ser humano avançou tanto em termos tecnológicos, libertou-se tanto dos limites impostos pela natureza aos outros animais, dominou-a tão completamente que se sentiu seu dono e senhor e passou a vê-la como algo separado dele mesmo. O preço dessa pretensão não tardou a ser cobrado: já nos séculos XVIII e XIX, os impactos ambientais provocados pela crescente industrialização eram muito grandes. Mas, de qualquer maneira, ainda eram localizados, atingiam basicamente os trabalhadores, os operários, os pobres. Os donos das fábricas poluidoras, os ricos, ainda tinham como se refugiar das mazelas da industrialização. Com o passar do tempo, devido à crescente expansão do processo de industrialização/urbanização, os impactos foram aumentando cada vez mais, até que, no pós-guerra, passaram a ter conseqüências globais.

O alerta foi dado no início da década de 70. Em 1972, foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre o Homem e o Meio Ambiente, em Estocolmo (Suécia). Nesse primeiro encontro de chefes de Estado para debater as questões sobre meio ambiente e desenvolvimento, nasceram as primeiras polêmicas acerca desses complexos temas. Nesse mesmo ano, uma entidade formada por importantes empresários, chamada Clube de Roma, encomendou ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos, um estudo que ficou conhecido como o Desenvolvimento Zero. Esse estudo, alertando o mundo para os problemas ambientais globais causados pela sociedade urbano-industrial, propunha o congelamento do crescimento econômico como única solução para evitar que o aumento dos impactos ambientais levasse o mundo a uma tragédia ecológica. Obviamente, essa era uma péssima solução para os países subdesenvolvidos.
 
Muitos recursos naturais do planeta não são renováveis, cabendo, portanto, ao homem utilizá-los criteriosamente para postergar o máximo possível seu esgotamento. Na foto, exploração de ferro no Vale do Rio Doce, em Carajás, no Pará (2000).
Ricardo Chaves
 
A Conferência Estocolmo-72 foi marcada pela polêmica entre os defensores do “desenvolvimento zero”, basicamente representantes dos países industrializados, e os defensores do “desenvolvimento a qualquer custo”, representantes dos países não-industrializados. A proposta dos países ricos era, na verdade, a de congelar as desigualdades socioeconômicas vigentes no mundo; a dos países pobres era a de implementar uma rápida industrialização de alto impacto ecológico e humano. Nenhuma proposta menos maniqueísta surgiu nessa ocasião.

A crise econômica mundial dos anos 70, detonada em parte pelo choque do petróleo e que serviu, aliás, para alertar o mundo para o fato de que os recursos naturais são esgotáveis, colocou questões econômicas mais urgentes para os governantes do mundo inteiro se preocuparem. Somente no início dos anos 80 a polêmica desenvolvimento x meio ambiente seria retomada.

Em 1983, a Assembléia Geral da ONU indicou a então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, para presidir uma comissão encarregada de estudar esse tema. Em 1987, foi publicado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CMMAD) da ONU um estudo denominado Nosso futuro comum, mais conhecido como Relatório Brundtland. Esse estudo, que defendia o crescimento para todos, buscava um equilíbrio entre as posições antagônicas surgidas na Estocolmo-72. Tentando conciliar desenvolvimento e preservação do meio ambiente, surgiu pela primeira vez a concepção de desenvolvimento sustentável. Tomando emprestada da ecologia natural a noção de sustentabilidade, o Relatório Brundtland sugeriu um novo conceito de desenvolvimento, que seria “uma correção, uma retomada do crescimento, alterando a qualidade do desenvolvimento, a fim de torná-lo menos intensivo de matérias-primas e mais eqüitativo para todos”, e, ao mesmo tempo, “um processo de mudança no qual a exploração dos recursos, a orientação dos investimentos, os rumos do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão de acordo com as necessidades atuais e futuras” (CMMAD, 1987).

Muitos ambientalistas no mundo inteiro criticaram esse relatório, que, segundo eles, não passava de uma perspectiva conservadora de crescimento sustentável, ao não questionar o modelo de desenvolvimento vigente em escala mundial, por acreditar no voluntarismo dos agentes econômicos e, finalmente, por propor apenas a transformação do capitalismo num “ecocapitalismo”. O Relatório Brundtland sugeria apenas a implantação de uma série de medidas paliativas, um “capitalismo verde”, para minimizar os impactos ambientais, muito aquém, portanto, das propostas radicais dos que defendiam a concepção de sociedades sustentáveis. Percebeu a sutileza? Os defensores de uma proposta radical de sustentabilidade, portanto críticos da proposta conservadora, nem utilizam o termo desenvolvimento, que, para eles, já está fortemente impregnado de uma perspectiva meramente econômica. As sociedades sustentáveis estariam baseadas em igualdade econômica, justiça social, preservação da diversidade cultural, da autodeterminação dos povos e da integridade ecológica, o que obrigaria a mudanças não apenas econômicas, mas filosóficas, morais e éticas. Implicaria, enfim, uma visão holística1 para a relação homem-natureza.
 
Nos anos 1980 e 1990, cresceu a atuação das ONGs em defesa da ecologia. Na foto, jovem militante do Greenpeace ouve instruções sobre a proteção a filhotes de foca.
David White/Keystone/REX.
 
Surge uma nova utopia que tenta dar respostas aos anseios de amplas parcelas da humanidade que não vêem no modelo de desenvolvimento vigente nas modernas sociedades de consumo a saída para os problemas que as afligem. São problemas sociais, econômicos e ambientais, muitos deles agravados sob o capitalismo em seu período técnico-científico. Infelizmente, entre o ideal e o real há uma distância muito grande. Vejamos, então, o que se está tentando fazer para encontrar um equilíbrio entre a necessidade capitalista de acumulação que, em escala mundial, causa impactos ambientais e desigualdades sociais e a apropriação da natureza de forma sustentável, combinada com a melhoria das condições de vida dos seres humanos. Vejamos o que é possível fazer dentro da concepção de desenvolvimento sustentável, ou seja, dentro da lógica de, no máximo, caminharmos para um “capitalismo verde”.
 
Rio-92: perspectivas para o futuro

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, reuniu chefes de Estado da maioria dos países do mundo, além de milhares de representantes de organizações não-governamentais (ONGs), numa conferência paralela. Esse encontro, que na fase preparatória teve como subsídio o Relatório Brundtland, definiu uma série de resoluções, visando alterar o modelo consumista de desenvolvimento vigente no mundo para outro, mais sustentável ecologicamente. O objetivo fundamental era tentar minimizar os impactos ambientais no planeta, garantindo, assim, o futuro das próximas gerações. Segundo o Relatório da CMMAD: “O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”. Para atingir tal fim, foram elaboradas duas convenções (uma sobre biodiversidade, outra sobre mudanças climáticas), uma declaração de princípios (Declaração do Rio), uma Declaração sobre as florestas e um plano de ação.

O plano de ação, mais conhecido como Agenda 21, é um ambicioso programa para a implantação de um modelo de desenvolvimento sustentável em todo o mundo para o século XXI. Obviamente, para atingir esse objetivo são necessários volumosos recursos. Os países desenvolvidos comprometeram-se a canalizar 0,7% de seus PIBs (produto interno bruto) para a aplicação do programa. Com raras exceções, como os países nórdicos, esses países não estão cumprindo esse compromisso. Já faltam recursos para os primeiros passos rumo à implementação da Agenda 21.

Já a Convenção sobre Biodiversidade e a Convenção sobre Mudanças Climáticas têm como agente financiador um organismo denominado GEF (Global Environment Facility) ou Fundo para o Meio Ambiente Global. Criado em 1990, o GEF é dirigido pelo Banco Mundial e recebe apoio técnico e científico dos Programas das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e para o Meio Ambiente (PNUMA).

A Convenção sobre Biodiversidade traça uma série de medidas para a preservação das várias espécies de vida que habitam o planeta. Em vigor desde 1993, essa convenção tenta frear a destruição da fauna e da flora, concentradas principalmente nas florestas tropicais, as mais ricas em biodiversidade.

A Convenção sobre Mudanças Climáticas estabeleceu várias medidas que visam diminuir a emissão de poluentes pelas fábricas, automóveis e outras fontes poluidoras, com o objetivo de impedir a destruição da camada de ozônio, a ação do efeito estufa, o avanço da desertificação, etc. Essa convenção entrou em vigor em 1994. Novo acordo sobre o tema foi firmado em 1997, através do Protocolo de Quioto.

Ainda na Rio-92, foi criada a Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CDS), com o objetivo básico de fiscalizar a aplicação da Agenda 21. A CDS tem 53 países membros, entre os quais o Brasil. Sediada em Nova Iorque, está vinculada à ONU.
 
Carlão Limeira/AE
A Rio-92, se não trouxe soluções definitivas para os graves problemas ecológicos atuais, pelo menos encaminhou-os e explicitou-os para o grande público.
 
O papel das organizações não-governamentais (ongs)

Muitas ONGs têm desempenhado um papel fundamental como defensoras da natureza, ao longo das últimas décadas. Elas simbolizam a conscientização e a organização da sociedade civil na luta pela preservação dos ecossistemas do planeta. Desempenham importante papel, todas elas, na fiscalização da aplicação das resoluções da Rio-92. No entanto, uma foi criada especialmente para esse fim. Trata-se do Conselho da Terra, uma ONG liderada por 21 eminentes ambientalistas de vários países. Funciona desde 1993 e está sediada em San José (Costa Rica).

A mais famosa ONG do mundo é o Greenpeace. Criado em 1971, hoje tem mais de 5 milhões de filiados espalhados por 29 países. É uma das ONGs mais atuantes em vários campos da preservação ambiental. Notabilizou-se principalmente por organizar protestos contra a caça predatória, como a das baleias, e contra testes nucleares subterrâneos, como os realizados pela França no oceano Pacífico (Polinésia), em 1995. Outra ONG importante é o WWF World Wildlife Fund ou Fundo Mundial para a Natureza, uma das mais antigas, que desde 1961 luta em defesa da natureza em todo o planeta. Trata-se de uma das entidades que mais investem na preservação de ecossistemas ameaçados de extinção no nosso país, algo em torno de 3 milhões de dólares por ano. No Brasil, uma das ONGs mais atuantes é a Fundação SOS-Mata Atlântica, criada em 1986 com o objetivo de preservar o que restou dessa floresta nas encostas da serra do Mar.
 
A atuação das várias ONGs ambientalistas é a demonstração da mobilização de parcelas da sociedade civil mundial na tentativa de buscar soluções para os problemas ecológicos. Na foto, um protesto feito na França em 2000.
P. Franck/Corbis/Sygma
 
A falência do modelo consumista de desenvolvimento

Os países desenvolvidos congregam em torno de um quinto da população mundial, o que dá pouco mais de um bilhão de habitantes. No entanto, essa minoritária população responde por cerca de 80% de todos os recursos naturais (matérias-primas, energia e alimentos) consumidos no planeta. Conseqüentemente, sobram apenas 20% desses recursos para serem consumidos por quatro quintos da humanidade. Concentrado nos países subdesenvolvidos, esse índice corresponde a uma população de 4,8 bilhões de seres humanos. Destes, aliás, uma população equivalente àquela dos países desenvolvidos vive na mais absoluta miséria. Se considerarmos que a riqueza, nesses países, é muito concentrada e, portanto, há uma elite e uma reduzida classe média que seguem padrões de consumo idênticos aos vigentes no mundo desenvolvido, conclui-se que a esmagadora maioria da população dos países subdesenvolvidos vive na pobreza ou na absoluta miséria, apresentando, assim, baixos níveis de consumo.

Por outro lado, apenas as duas maiores potências econômicas do mundo atual, Estados Unidos e Japão, que juntas têm uma população de 409 milhões (6,7% do total mundial), consomem aproximadamente um terço de todos os recursos naturais do planeta. Um bebê norte-americano consome, em média, trinta vezes mais que um bebê nascido num país subdesenvolvido. A energia per capita consumida nos países da OCDE é oitenta vezes maior do que a consumida nos países da África subsaariana, uma das regiões mais pobres do planeta. Os habitantes dos países ricos consomem, em média, quinze vezes mais papel, dez vezes mais aço e doze vezes mais energia comercial do que os habitantes dos países pobres.

Com base no que estudamos nesta unidade, chegamos a uma conclusão inquestionável: o modelo de desenvolvimento consumista e de alto impacto ambiental é impossível de ser estendido a toda a população do planeta. O modelo de progresso difundido pelos países ricos é insustentável ecologicamente.
 
Laureni Fochetto
Peter Gridley/Keystone
 
O parâmetro de desenvolvimento baseado no consumo, inclusive de muitos produtos supérfluos, e no desperdício, só é possível de ser atingido por uma parcela reduzida da humanidade. Nas fotos, vitrine em São Paulo e o centro de Nova Iorque.
 
É por isso que a grande questão que se coloca hoje em dia é a busca de um novo modelo de desenvolvimento que não cause tantos impactos no meio ambiente, que seja ecologicamente sustentável e que promova uma melhor distribuição da riqueza no mundo. Para isso, como já foi discutido, não bastaria apenas um novo modelo de desenvolvimento, mas sim de sociedade. Essa discussão já tinha aparecido na Estocolmo-72, permeou a Rio-92 e também apareceu na Conferência sobre População e Desenvolvimento realizada no Cairo (Egito) em 1994. É relativamente antiga, conforme se pode perceber pela leitura do texto a seguir, publicado em 1976, e da notícia veiculada em 1994.
 
 

Supõe-se que, dado o atual crescimento da população e sua distribuição no planeta, e levando em conta as tendências atuais do consumo dos recursos naturais e a emissão de agentes poluidores por parte dos países desenvolvidos, será impossível aos países subdesenvolvidos atingirem o nível de progresso daqueles. Se os 3/4 da humanidade que vivem nos países subdesenvolvidos desbaratarem seus recursos naturais, consumindo-os no mesmo ritmo (por habitante) que os EUA e os países da Europa Ocidental, por exemplo, não restará oxigênio para todos, nem haverá metais suficientes para a indústria, enquanto, por outro lado, haverá carbono, enxofre e dióxido de nitrogênio em tal quantidade que provocarão a extinção da humanidade.

 
ALMEIDA, Miguel A. O. de. O mito do equilíbrio ecológico”. In: Luta contra a poluição. Rio de Janeiro, O Correio da Unesco/Fundação Getúlio Vargas: 1976. p. 104.
 
 
 
Os ricos gastam demais, diz ONU
 

Os recursos do planeta estão acabando mais por gasto excessivo nos países ricos do que pelo tamanho da população, disse ontem na conferência do Cairo a diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Segundo Elizabeth Dowdeswell, mesmo cumprindo-se “as mais otimistas previsões sobre crescimento da população, os modos de vida dos países do Norte seriam incompatíveis com o que a Terra pode agüentar”.
Cerca de 20% da população mundial — concentrada nos países ricos — consome 80% dos recursos naturais do Planeta. Os países ricos “podem ser responsabilizados por dois terços da destruição global do meio ambiente”, disse Elizabeth em seu discurso à conferência.

 
FOLHA de S.Paulo, 7 set. 1994.
 
 
É impossível não associar crescimento populacional e, portanto, políticas demográficas, aos impactos ambientais. Essa polêmica surgiu novamente na Conferência do Cairo-94. No entanto, é importante ter claros quais são os interesses envolvidos. Na perspectiva neomalthusiana, o crescimento exagerado é causador da miséria, da fome e das agressões ao meio ambiente. Essa perspectiva é defendida por muitas pessoas e entidades nos países desenvolvidos. O próprio Relatório Brundtland identifica a pobreza como causa primordial da deterioração ambiental. A solução, então, seria o controle da natalidade. A outra perspectiva, que abriga várias correntes, as quais podem ser agrupadas como reformistas, afirma que o alto crescimento populacional é conseqüência da miséria, da desinformação, da falta de assistência médica, etc. Assim, bastaria a elevação do padrão de vida da população para que as famílias espontaneamente reduzissem o número de filhos, como ocorreu nos países desenvolvidos.
 
Pobreza, desinformação, degradação ambiental. Belo Horizonte-MG 2004.
Robson de Oliveira/Nextfoto
 
 
É justamente aqui que, dentro do modelo de desenvolvimento vigente, surge uma grande contradição. Elevar o padrão de vida dessas populações é seguir o parâmetro dado pelos países desenvolvidos? Você já pensou no que significa a população chinesa e a indiana, para ficar só em dois países, atingirem um padrão de vida e, portanto, de consumo idêntico ao norte-americano, japonês ou europeu ocidental? Isso deixa os ecologistas e todos que se preocupam com o meio ambiente, por um motivo ou por outro, de cabelos arrepiados. Os sérios defendem um novo modelo de sociedade: sustentável ecologicamente, política e economicamente democrática. Os levianos defendem o controle demográfico puro e simples, fazendo vistas grossas para uma série de aspectos importantes para a solução do problema. Parece óbvio que a população não pode crescer indefinidamente, pelo simples fato de que a Terra é um planeta finito. Além disso, aumenta a poluição resultante da miséria, principalmente por causa da carência de infra-estrutura de saneamento básico, o que facilita a proliferação de doenças. Mas é muito mais cômodo usar os pobres como bodes expiatórios, não tocando em questões importantes como distribuição da riqueza, acesso às tecnologias e às informações, gestão do meio ambiente, democratização do poder, entre outros temas que estão sob o controle dos países desenvolvidos.

Só o fortalecimento da democracia e da cidadania em escala planetária pode levar, pela pressão da sociedade civil organizada, à solução desses complexos problemas.
 
 
O ambientalismo em ação
 

O ambientalismo não pode ser considerado meramente um movimento de conscientização. Desde o início, procurou exercer influência na legislação e nas atitudes tomadas pelos governos. Na verdade, as principais organizações ambientalistas (tais como as integrantes do Grupo dos Dez nos Estados Unidos) concentram seus esforços na formação de lobbies para obter conquistas na legislação, e no apoio ou oposição a candidatos a cargos eletivos com base em sua postura política em relação a determinadas questões. Mesmo as organizações não tradicionais orientadas à ação, como o Greenpeace, têm dado atenção cada vez maior à pressão sobre os governos e instituições internacionais para obter a aprovação de leis, decisões favoráveis e implantação das decisões tomadas acerca de questões específicas. Do mesmo modo, em níveis local e regional, os ambientalistas organizaram campanhas em defesa de novas formas de planejamento urbano e regional, medidas de saúde pública e controle sobre o desenvolvimento desenfreado. É esse pragmatismo, essa atitude que procura dar ênfase à resolução de questões, que vem proporcionando ao ambientalismo uma vantagem em relação à política internacional: as pessoas percebem que são capazes de exercer influência sobre decisões importantes aqui e agora, sem que para isso seja necessário qualquer tipo de mediação ou postergação. Não há distinção entre os fins e os meios.

[...]

Lançando mão de todas essas táticas, o ambientalismo vem se tornando uma das mais importantes forças da opinião pública, exigindo reconhecimento pelos partidos e candidatos de diversos países. Por outro lado, a maioria das organizações ambientais vem se institucionalizando, isto é, tem concordado com a necessidade de atuar estando inseridas na estrutura das instituições já estabelecidas e de acordo com as normas de produção e de uma economia de mercado globais. Assim, ações conjuntas com empresas de grande porte têm sido regra e não exceção. Muitas vezes essas empresas financiam uma série de atividades ambientalistas, tornando-se extremamente conscientes da importância da defesa das questões ambientais, a ponto de transformar temas relacionados ao meio ambiente nas principais imagens veiculadas em sua propaganda e informes publicitários. Entretanto, nem tudo é manipulação. Empresas em todo o mundo também têm sido influenciadas pelo ambientalismo, buscando adaptar seus produtos e processos às novas leis, preferências e valores, obviamente visando ao lucro a partir dessas ações. Em decorrência do fato de as verdadeiras unidades de produção em nossa economia terem deixado de ser empresas individuais para transformar-se em redes transnacionais constituídas de vários componentes, a transgressão das leis ambientais tem ocorrido de forma mais descentralizada em empresas de pequeno porte e nos países recém-industrializados, alterando assim a geografia e a topologia da ação ambientalista no futuro próximo.

Com o aumento extraordinário da consciência, influência e organização ambientalista, o movimento tornou-se, sobretudo, cada vez mais diversificado, tanto do ponto de vista social quanto temático, chegando às mesas de reuniões das grandes empresas, aos recônditos da contracultura e às prefeituras e assembléias legislativas. Ao longo desse processo, os temas têm sofrido distorções, sendo às vezes submetidos a manipulações. Contudo, essa é a marca de qualquer movimento social relevante. Sem sombra de dúvida, o ambientalismo é um dos mais importantes movimentos sociais de nosso tempo, porquanto compreende uma série de causas sociais sob a égide da justiça ambiental.

 
CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 163-5.
(A era da informação: economia, sociedade e cultura, 2)
 
 
Movimentos em defesa do meio ambiente e a destruição da camada de ozônio

Outro problema ambiental recente de caráter global é a gradativa destruição da camada de ozônio (O3) existente na estratosfera. Esse gás é encontrado numa faixa de 10 a 50 km de altitude, mas sua maior concentração ocorre a mais ou menos 25 km. Ele tem um papel fundamental na regulação da vida na Terra, ao filtrar a maior parte das radiações ultravioleta (UVA, UVB, UVC) emitidas pelo Sol. Tais radiações, em quantidade excessiva, podem causar no homem, entre outros problemas, câncer de pele e perturbações da visão, como catarata. Além disso, provocam a diminuição da velocidade da fotossíntese dos vegetais e são perigosos para animais e para o plâncton marinho, por interferirem em seus mecanismos de reprodução.

Desde 1976 a Organização Meteorológica Mundial vem monitorando a concentração de ozônio na atmosfera. Na década de 1980 essas pesquisas mostraram que a concentração desse gás estava diminuindo sobre a Antártida. Descobriu-se então o comentado “buraco” na camada de ozônio. Embora o termo tenha se popularizado, na realidade não se trata de um buraco, mas de uma área de baixa concentração de ozônio. Mas como esse “buraco” surgiu? Por que sobre a Antártida? Ele está aumentando? Vai atingir outras regiões do planeta? Essas eram algumas das preocupações na época.

Já são conhecidos os grandes vilões da destruição do ozônio, os gases CFCs (clorofluorocarbonos), usados como fluidos de refrigeração, como solventes, nas embalagens de aerossóis e nas espumas plásticas. Além dos CFCs, outros produtos químicos também foram responsabilizados: compostos bromados (extintores), tetracloreto de carbono (extintores e solventes) e clorofórmio de metila (solvente).

Em 1987, diversos países assinaram um acordo de redução do uso desses produtos, conhecido como Protocolo de Montreal. Quando o acordo entrou em vigor, em 1o de janeiro de 1989, 29 países mais a União Européia, responsáveis por cerca de 80% da produção mundial dos gases nocivos ao ozônio, já o tinham assinado. O Brasil aderiu ao Protocolo em 1990 e, até 2003, 180 países já o haviam assinado. Em 1990, através da Emenda de Londres, os países signatários concordaram em banir completamente o uso de CFCs, substituindo-os por outros produtos inofensivos à camada de ozônio, e criaram um Fundo Multilateral para implementação do acordo, voltado sobretudo para ajuda técnica aos países em desenvolvimento. Ao acordo inicial foram acrescentadas emendas definindo novos objetivos. Outros produtos que contribuem para a destruição do ozônio, segundo os acordos firmados, também deverão ter sua utilização reduzida até o total banimento. Essas medidas devem colaborar para a recuperação da camada de ozônio, levando, quem sabe, ao desaparecimento do “buraco” até meados deste século.
 
Adap.: PEARSON, Ian. (Org.). The macmillan atlas of the future. Nova York: Macmillan Publishing USA, 1998. p. 20-1.
 
Caso a tendência de redução do uso de gases nocivos à camada de ozônio se mantenha no mundo todo, o “buraco” sobre a Antártida deverá se reduzir gradativamente até desaparecer por completo. Segundo dados da Organização Meteorológica Mundial, em 2000 o “buraco” atingiu seu tamanho máximo, chegando a cobrir uma área de 28 milhões de quilômetros quadrados, que em 2001 reduziu para 25 milhões.
 
Você precisa saber
1. Quais a propostas de desenvolvimento defendidas na Conferência Estocolmo-72?

2. O que é desenvolvimento sustentável?

3. Por que muitas pessoas preferem o termo sociedade sustentável a desenvolvimento sustentável?

4. Quais as principais resoluções tomadas na Conferência Rio-92?

5. Qual é a crítica que muitas pessoas preocupadas com o meio ambiente fazem ao modelo de desenvolvimento vigente no mundo? É possível toda a população mundial viver de acordo com esse modelo?
 
Seção de vídeo
Sugerimos, para complementar o estudo desta unidade, um debate sobre o filme:

Koyaanisqatsi. Estados Unidos, 1983. Direção: Godfrey Reggio

Koyaanisqatsi, na língua dos hopis, índios que habitavam a região do Grand Canyon no oeste dos Estados Unidos, quer dizer “vida em desequilíbrio”. Sincronizando imagens de rara beleza com a música minimalista de Philip Glass, Reggio compõe um filme sem diálogos, porém de grande densidade, que “fala” muito pelo impacto das imagens e dos sons. Mostra as contradições das sociedades urbano-industriais, com cenas dos países desenvolvidos, e o rompimento do equilíbrio da interação homem-natureza. Ao compor um panorama cético das sociedades de consumo, expõe claramente os limites do homem.
 
1 Holística (do grego holo, ‘todo’) Doutrina ou teoria que encara a vida, em todas as suas formas, e o meio ambiente inorgânico como um todo em interação, portanto, como um sistema integrado.
 
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