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Para ser: a literatura promovendo a inclusão
Amélia Fernandes Cândido

A estória não acaba quando chega ao fim. Ela permanece na mente da criança, que a incorpora como um alimento de sua imaginação criadora.

Betty Coelho

As narrativas sempre atraíram os homens: contadas oralmente, noite aberta, ao pé das fogueiras, ou ouvidas ao abrigo, ao redor das lareiras; lidas solitariamente, sob as cobertas; contadas pela mãe na hora de dormir, ou pelo professor nas salas de aulas; desenhadas e vistas nas paredes das cavernas, nos murais das igrejas, ou nas telas da televisão e do cinema; representadas em praças públicas e teatros; e, atualmente, experienciadas virtualmente nas telas do computador.

Dentre as narrativas, os contos de fadas e os contos maravilhosos, memória popular resgatada através dos séculos, tornaram-se importantes instrumentos de pesquisa e ganharam grande dimensão entre literatos e estudiosos de psicanálise e educação. Adquiriram também um relevo especial entre os livros recomendados à criança.

Um dos precursores no estudo da importância dos contos de fadas na vida das crianças foi o psicólogo Carl Gustav Jung. Para ele, o homem constrói sua experiência de vida de forma inconsciente. Há um inconsciente coletivo universal, que pertence a todos os lugares e todas as épocas, desde a Pré-história, e que vai se formando através dos tempos por uma repetição de experiências. Essa repetição cria um conjunto de “resíduos”, uma capacidade de arquivar o que se aprendeu, que ele chama de typos – uma espécie de molde dessas experiências vividas. Jung diz que eles aparecem no nível inconsciente por meio de imagens, figuras, e não de palavras: esses typos transformam-se em arquétipos.

Quando a criança ouve um conto de fadas, os símbolos agem de modo subliminar: vão direto ao inconsciente para “trabalhar” seus conteúdos e resolver algum eventual problema. A mudança pessoal aparece não pelo uso do intelecto, mas pelo uso de imagens e símbolos – o uso do inconsciente, numa fala diretamente com a criança, sem intermédio da razão ou de explicações, conselhos ou sermões.

Se os símbolos transmitem significados manifestos e encobertos, grande parte da literatura infantil e juvenil – não apenas os contos de fadas –, tão carregada de símbolos, pode ser utilizada como propulsora de percepção de forças, impulsos, paixões primárias, como amor, ódio, ciúme, ambição, inveja, etc., vividas pela humanidade desde sua origem.

O indivíduo precisa aprender a perceber que há muitas maneiras de ver o mundo, a conhecer-se, ver suas próprias características sem ignorar o que é considerado bom ou mau; precisa aceitar-se como é (sua aparência, seu modo de agir e pensar); aprender a conviver melhor com o outro e a ter paciência consigo mesmo; dar-se um tempo e, mais que tudo, perceber os progressos que faz diariamente; precisa aprender a enfrentar os medos e as dificuldades; perceber todo o seu valor; respeitar-se pelo que pode ou não pode pensar e fazer.

A literatura infantil e juvenil pode ajudar a reelaborar perdas, ressignificar e reinterpretar o próprio mundo. As perdas se reelaboram no plano simbólico sem ameaçar a estrutura real, fortalecendo e permitindo contato até mesmo com o inconsciente, o que possibilita um equilíbrio entre a ansiedade e a aspiração. Ao reconhecer as dificuldades, ao sugerir soluções para os problemas, permite que o leitor entenda melhor esse mundo complexo e os problemas do ser humano, ajudando-o a colocar uma ordem na sua casa interior.

Muitas obras resgatam aspectos históricos; outras discutem ética, cidadania e a necessidade de harmonização do homem com o meio ambiente. Muitas são carregadas de pensamentos filosóficos que permitem reflexão crítica e conscientização, um repensar nos valores de vida. E há ainda as que podem servir de alavanca para textos mais complexos, o que permite comparações e análises em suas diferenças e similaridades.

A literatura infantil e juvenil pode ser um elemento facilitador na promoção da inclusão: há um despertar que promove a identificação com os problemas físicos, sociais e emocionais dos personagens. Sensibilizado e envolvido pelo contexto da história, o leitor é instigado a atuar mais solidariamente, pois há uma quebra natural de preconceitos.

A narrativa pode provocar sentimentos e reflexões que não ocorreriam espontaneamente. Ao vivenciar e experimentar o papel do personagem, refletindo sobre as narrativas, o indivíduo passa a ver que a vida é rica de significados. Isso pode representar para ele um depósito de esperanças e estimular o desejo de descobrir coisas novas, que o incite a desenvolver habilidades e conhecer o poder de suas próprias potencialidades.

Sabemos que uma história deve despertar a curiosidade para poder prender a atenção do leitor. Mais que isso, porém, ela deve estimular a imaginação e trabalhar as emoções para poder enriquecer a vida.
Amélia Fernandes Cândido é graduada e mestre em Letras (Português/Inglês) pela USP, tendo desenvolvido pesquisa em Literatura Infantil. É pós-graduada em Psicopedagogia. Lecionou em escolas das redes pública e particular, na Universidade de Santo Amaro, no curso de pós-graduação lato-sensu da Universidade Metodista e na Universidade do Grande ABC. Foi professora formadora do projeto Teia do saber, do governo estadual, no Centro Universitário Nove de Julho, e ministrou curso no Programa de Educação Continuada (PEC), da Faculdade de Educação da USP, para professores do ensino fundamental.
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