As
narrativas sempre atraíram os homens:
contadas oralmente, noite aberta, ao pé
das fogueiras, ou ouvidas ao abrigo, ao
redor das lareiras; lidas solitariamente,
sob as cobertas; contadas pela mãe
na hora de dormir, ou pelo professor nas
salas de aulas; desenhadas e vistas nas
paredes das cavernas, nos murais das igrejas,
ou nas telas da televisão e do cinema;
representadas em praças públicas
e teatros; e, atualmente, experienciadas
virtualmente nas telas do computador.
Dentre as narrativas, os contos de fadas
e os contos maravilhosos, memória
popular resgatada através dos séculos,
tornaram-se importantes instrumentos de
pesquisa e ganharam grande dimensão
entre literatos e estudiosos de psicanálise
e educação. Adquiriram também
um relevo especial entre os livros recomendados
à criança.
Um dos precursores no estudo da importância
dos contos de fadas na vida das crianças
foi o psicólogo Carl Gustav Jung.
Para ele, o homem constrói sua experiência
de vida de forma inconsciente. Há
um inconsciente coletivo universal, que
pertence a todos os lugares e todas as épocas,
desde a Pré-história, e que
vai se formando através dos tempos
por uma repetição de experiências.
Essa repetição cria um conjunto
de “resíduos”, uma capacidade
de arquivar o que se aprendeu, que ele chama
de typos – uma espécie
de molde dessas experiências vividas.
Jung diz que eles aparecem no nível
inconsciente por meio de imagens, figuras,
e não de palavras: esses typos
transformam-se em arquétipos.
Quando a criança ouve um conto de
fadas, os símbolos agem de modo subliminar:
vão direto ao inconsciente para “trabalhar”
seus conteúdos e resolver algum eventual
problema. A mudança pessoal aparece
não pelo uso do intelecto, mas pelo
uso de imagens e símbolos –
o uso do inconsciente, numa fala diretamente
com a criança, sem intermédio
da razão ou de explicações,
conselhos ou sermões.
Se os símbolos transmitem significados
manifestos e encobertos, grande parte da
literatura infantil e juvenil – não
apenas os contos de fadas –, tão
carregada de símbolos, pode ser utilizada
como propulsora de percepção
de forças, impulsos, paixões
primárias, como amor, ódio,
ciúme, ambição, inveja,
etc., vividas pela humanidade desde sua
origem.
O indivíduo precisa aprender a perceber
que há muitas maneiras de ver o mundo,
a conhecer-se, ver suas próprias
características sem ignorar o que
é considerado bom ou mau; precisa
aceitar-se como é (sua aparência,
seu modo de agir e pensar); aprender a conviver
melhor com o outro e a ter paciência
consigo mesmo; dar-se um tempo e, mais que
tudo, perceber os progressos que faz diariamente;
precisa aprender a enfrentar os medos e
as dificuldades; perceber todo o seu valor;
respeitar-se pelo que pode ou não
pode pensar e fazer.
A literatura infantil e juvenil pode ajudar
a reelaborar perdas, ressignificar e reinterpretar
o próprio mundo. As perdas se reelaboram
no plano simbólico sem ameaçar
a estrutura real, fortalecendo e permitindo
contato até mesmo com o inconsciente,
o que possibilita um equilíbrio entre
a ansiedade e a aspiração.
Ao reconhecer as dificuldades, ao sugerir
soluções para os problemas,
permite que o leitor entenda melhor esse
mundo complexo e os problemas do ser
humano, ajudando-o a colocar uma ordem na
sua casa interior.
Muitas obras resgatam aspectos históricos;
outras discutem ética, cidadania
e a necessidade de harmonização
do homem com o meio ambiente. Muitas são
carregadas de pensamentos filosóficos
que permitem reflexão crítica
e conscientização, um repensar
nos valores de vida. E há ainda as
que podem servir de alavanca para textos
mais complexos, o que permite comparações
e análises em suas diferenças
e similaridades.
A literatura infantil e juvenil pode ser
um elemento facilitador na promoção
da inclusão: há um despertar
que promove a identificação
com os problemas físicos, sociais
e emocionais dos personagens. Sensibilizado
e envolvido pelo contexto da história,
o leitor é instigado a atuar mais
solidariamente, pois há uma quebra
natural de preconceitos.
A narrativa pode provocar sentimentos e
reflexões que não ocorreriam
espontaneamente. Ao vivenciar e experimentar
o papel do personagem, refletindo sobre
as narrativas, o indivíduo passa
a ver que a vida é rica de significados.
Isso pode representar para ele um depósito
de esperanças e estimular o desejo
de descobrir coisas novas, que o incite
a desenvolver habilidades e conhecer o poder
de suas próprias potencialidades.
Sabemos que uma história deve despertar
a curiosidade para poder prender a atenção
do leitor. Mais que isso, porém,
ela deve estimular a imaginação
e trabalhar as emoções para
poder enriquecer a vida.
|
Amélia
Fernandes Cândido é
graduada e mestre em Letras (Português/Inglês)
pela USP, tendo desenvolvido pesquisa em
Literatura Infantil. É pós-graduada
em Psicopedagogia. Lecionou em escolas das
redes pública e particular, na Universidade
de Santo Amaro, no curso de pós-graduação
lato-sensu da Universidade Metodista e na
Universidade do Grande ABC. Foi professora
formadora do projeto Teia do saber,
do governo estadual, no Centro Universitário
Nove de Julho, e ministrou curso no Programa
de Educação Continuada (PEC),
da Faculdade de Educação da
USP, para professores do ensino fundamental. |