Mergulhar
num bom livro é uma experiência.
Já começa antes do começo,
na vertigem do salto sem cordas ou rede,
terra firme livro adentro; segue na suspensão
da dúvida que, por mais leve, estremeça
a trama; nos sustos ou no soco dos mal-assombramentos,
reais ou inventados; no gozo das ousadias,
no frisson de pescar invisibilidades
– clarividências em trans-águas
lúcidas.
Há ainda o gosto do exílio
breve, das costas voltadas às exigências
do mundo, o prazer do raro silêncio,
da solidão (parcial) – porque
todo mergulho é feito em companhia.
E o melhor: a experiência não
termina nunca, porque depois de um livro
vem outro, outro, outro...
Ler é também experiência
transformadora. Se a vida é
uma narrativa, ler nos ajuda a escrevê-la
melhor – compreender o perfil dos
personagens, ler os fatos, interpretar versões,
“sacar” os cenários mutantes
das nossas circunstâncias. Ajuda-nos
a reinventar nosso próprio estilo
– argamassa de singularidade com a
qual, em silêncio ou com estardalhaço,
juntamos blocos de experiência e desejo,
conhecimento e escolhas, afetos e sonhos.
Nosso mestre-de-obras vibra, a cada livro,
com a inauguração de mais
uma laje ou torre ou porão no nosso
mundo interior.
Ler também nos conecta às
antenas do mundo. Lendo, aprendemos a enxergar
o que parece simples em sua complexidade,
a reconhecer em certas simplicidades riquezas
essenciais. Por exemplo, a simplicidade
da convivência, das relações
baseadas no afeto e no respeito mútuo,
da solidariedade, da cooperação,
da conduta ética e transparente.
Nas últimas décadas, as antenas
do mundo têm-se conectado de forma
crescente à necessidade de formular
e viabilizar políticas, leis, programas
e serviços voltados para a inclusão
social das pessoas com necessidades especiais.
O conceito de pessoas com necessidades
especiais engloba todas as pessoas
em condições sociais, físicas,
emocionais, sensoriais e intelectuais diferenciadas.
Aí se incluem tanto as pessoas portadoras
de deficiência como as superdotadas,
aquelas com dificuldades de aprendizagem,
os portadores de condutas típicas
(por exemplo, os hiperativos) e também
os desfavorecidos e marginalizados [Unesco,
1994].
Já o conceito de pessoa com deficiência
refere-se ao indivíduo que tenha
reduzidas, limitadas ou anuladas as condições
de mobilidade ou percepção
das características do ambiente em
que se encontra [ABNT/CB 40/NBR 9050]. Em
nosso país, as pessoas com deficiência
somam 24,5 milhões [Sicorde, 2005].
O paradigma da inclusão social,
que hoje mobiliza esforços em todo
o mundo, consiste em “tornar toda
a sociedade um lugar viável para
a convivência entre pessoas de todos
os tipos e inteligências na realização
de seus direitos, necessidades e potencialidades”
[Wikipédia, 2005].
Note-se na definição acima
a presença clara tanto da diversidade
(pessoas de todos os tipos e inteligências)
como da igualdade (o direito igual
de todas as pessoas à convivência
e à realização de seus
direitos, necessidades e potencialidades).
Mas, além do respeito às
diferenças e da igualdade
de direitos, o conceito de inclusão
pressupõe a eqüidade.
Tendo em vista as diferenças existentes
entre os indivíduos, alcançar
a igualdade presume colocar à disposição
das diferentes pessoas e inteligências
as condições de acessibilidade
e apoio de que necessitem para desenvolver
e exercer a cidadania, tão plenamente
quanto possível.
No que diz respeito às pessoas portadoras
de deficiência, a garantia da igualdade
de oportunidades exige, por exemplo, a eliminação
de barreiras que limitem ou impeçam
o desenvolvimento integral e o exercício
da cidadania dessas pessoas. Tais barreiras
podem ser: atitudes, como o preconceito;
aspectos relativos à acessibilidade
física, como a ausência de
rampas ou de guias rebaixadas para a circulação
de pessoas em cadeira de rodas; aspectos
relacionados à acessibilidade digital,
como a falta de acesso à tecnologia
da informação e da comunicação;
barreiras de caráter pedagógico,
como falta de treinamento adequado para
professores, falta de recursos e materiais
de apoio, etc.
Quanto à primeira barreira apontada,
o preconceito pode ser combatido se houver
maior convivência entre as pessoas
com deficiência e as sem deficiência.
A inclusão dos portadores de deficiência
nas escolas regulares certamente operará
nesse sentido. A Rede Saci, portal ligado
à Universidade de São Paulo
que visa a facilitar o acesso à informação
e à comunicação das
pessoas com deficiência, afirma que
“as escolas regulares, seguindo orientação
inclusiva, constituem os meios capazes para
combater as atitudes discriminatórias,
criando comunidades abertas e solidárias,
construindo uma sociedade inclusiva e atingindo
a educação para todos”
[Saci, 2005].
Em suma, para ser inclusiva, a educação
deve basear-se no reconhecimento das diferenças
individuais e no respeito por elas; na busca
de valores e práticas comuns; na
convivência com a diversidade como
sinônimo de interação
e inclusão; na valorização
da pessoa, com a modificação
da sociedade como pré-requisito para
a pessoa portadora de deficiência
buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania;
na garantia de acesso e permanência
(a modernização da escola,
o aperfeiçoamento do corpo técnico-pedagógico,
a apropriação do saber por
parte da totalidade dos alunos) [Senac,
2002].
Na sociedade brasileira, observa-se uma
gradativa incorporação dos
conceitos apontados paralelamente à
disseminação do conceito de
“responsabilidade social”. Em
muitas empresas e instituições,
notam-se esforços progressivos no
sentido da adaptação de ambientes
físicos, rotinas de trabalho e relações
interpessoais, de forma a incluir as pessoas
portadoras de deficiências.
Há muito a caminhar, porém.
E cobrar o cumprimento das leis já
existentes é um direito e um dever
de todos.
Na esfera educacional, embora a legislação
preveja a inclusão das crianças
com necessidades especiais nas escolas regulares,
de modo geral esse processo não se
faz acompanhar da necessária infra-estrutura
de apoio. Em decorrência desse fato,
e com raras exceções, os professores
que acolhem alunos portadores de deficiência
na rede regular de ensino acabam tendo de
lidar com seu próprio desamparo e
despreparo, apostando na criatividade e
na capacidade de improvisação.
Nosso país está aí,
à espera de nossos passos, de nossas
mãos dadas, de nossas mangas arregaçadas...
Certamente ele agradecerá toda luta
por formar cidadãos cuja conduta,
nas esferas privada e pública, paute-se
pela ética, pela cooperação,
pela solidariedade e pelo respeito à
dignidade e às diferenças
de todos os indivíduos.
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