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Uma vida sobre rodas
Lô Galasso

Olá! Você acaba de conhecer a Maria, personagem principal deste livro.

Lembra que, no começo da história, a Maria viu umas crianças brincando na praça e sentiu uma tristezinha, pensando que gostaria de brincar com elas? Mas por que ela não podia brincar com as outras crianças? Por causa do problema que ela tem, de não poder mover as pernas? Será? Vamos voltar até a praça e ver se a gente descobre? Ela fica na ilustração das páginas 10 e 11.

E aí? Olhou bem? Do que as crianças estão brincando? Escorregador, skate, bicicleta, amarelinha, bambolê, patins, caixa de areia... Ah, tem também aquelas duas crianças mexendo na água do chafariz.

Bem, vamos pensar um pouco. De escorregador, skate e bicicleta, acho que ia ser difícil a Maria brincar. Mas você não acha que ela poderia brincar de amarelinha? Era só ela e a turma inventarem umas regras novas para o jogo! Por exemplo: a Maria teria que estacionar certinho a cadeira de rodas dentro da casa da vez, de olhos fechados... E, para a cadeira caber nas casas, era só alguém desenhá-las maiores. Ah, você acha que não ia dar certo? Que, sentada na cadeira, a Maria não ia conseguir pegar a pedra ou a casca de mexerica que se usa para marcar a casa da vez? Mas e se arranjassem uma coisa um pouco maior, que ela pudesse alcançar? Um bicho de pelúcia velho ou um dado bem grande, feito de espuma ou papelão, por exemplo? Desse jeito, enquanto uns pulariam amarelinha, a Maria rodaria amarelinha. Acho que seria superdivertido para todo mundo!

A Maria também poderia brincar de bambolê! Ela poderia rodá-lo nos braços em vez da cintura. E poderia brincar com todo mundo de um montão de outras coisas: jogos, teatro, montar quebra-cabeça, desenhar, pintar, cantar, empinar pipa. Ela também poderia brincar na caixa de areia da página 10, se a caixa não fosse cercada de um degrau tão alto. Poderia mergulhar as mãos na água da fonte da página 11, se ela não fosse tão alta e rodeada de degraus.

Bem, tudo isso tem a ver com uma praça de mentirinha, certo? Mas e se a Maria fosse uma menina de carne e osso e viesse morar na cidade onde você mora? Ela conseguiria brincar nas praças ”de verdade” com sua cadeira de rodas? Conseguiria sair de casa sozinha e ir rodando pelas calçadas até chegar a uma praça? Nas calçadas e praças que você conhece, existem rampas? As calçadas são planas ou cheias de buracos? Há brinquedos nas praças? Uma criança cadeirante conseguiria brincar neles?

Bem, já deu para você perceber que nas cidades de verdade todas as calçadas, praças, bibliotecas, igrejas, lojas, casas, escolas, piscinas; todos os supermercados, museus, restaurantes, prédios, clubes, teatros, cinemas, parques, circos, elevadores, empresas, trens, ônibus, banheiros – tudo isso precisa ser projetado ou adaptado para que todas as pessoas – pessoas com todos os tipos de necessidades – possam entrar e sair, ir e voltar, descer e subir, sair e entrar, subir e descer, entrar e brincar, brincar e sair. Enfim, todas as pessoas precisam poder circular por todos os lugares de todas as cidades com segurança e sem precisar pedir a ajuda dos outros a todo momento.

Todos os bebedouros precisam ter uma parte mais baixa para que uma criança pequena, uma pessoa anã ou cadeirante, enfim, todos possam matar a sede.

Os lugares que têm degraus precisam ter rampas também. Isso é bom para quem usa cadeira de rodas e para um montão de outras pessoas: quem usa bengala, empurra carrinho de bebê, puxa carrinho de feira, anda de patins, trabalha empurrando carrinhos (de pedreiro, de pipoca, de sorvete).

Os ônibus também precisam ser adaptados para que um cadeirante possa subir e descer deles com segurança e sem ajuda. O benefício é de todos: ninguém mais terá que fazer um baita esforço para escalar degrau de ônibus! Já pensou como seria bom para as pessoas idosas, que não têm muita força nas pernas; as que usam bengalas porque estão machucadas ou são deficientes visuais; as que são muito pesadas; as que carregam bebês no colo; as crianças pequenas? Todo mundo teria mais conforto e segurança.

Mas não adianta nada mudar tudo isso se não mudar também o modo de pensar das pessoas. Tem gente que olha para uma pessoa como a Maria com preconceito, achando que, por causa da deficiência, ela não consegue fazer nada sozinha. Lembra da irritação que ela sentia quando olhavam demais para ela, como se não fosse uma pessoa como as outras? E a chateação que ela sentiu no supermercado quando o moço colocou o pacote de maçãs em suas mãos sem que ela pedisse? Assim como gostava de se vestir sozinha, mesmo tendo muita dificuldade, ela também adorava vencer os outros desafios, fazer todas as coisas que pudesse por conta própria.

Você já não viu pessoas circulando sozinhas em suas cadeiras de rodas em supermercados, cinemas, lojas? Você já não viu, na tevê, pessoas com deficiência física ganhando campeonatos de natação, basquete, boxe, remo, futebol? Pois é. A deficiência não impede essas pessoas de fazer coisas interessantes, de lutar para fazer aquilo de que gostam.

Cada pessoa que existe no mundo é única, diferente de todas as outras. E, ao mesmo tempo, cada um de nós tem o direito de ser como é, de ser respeitado/a do jeito que é e de poder ir e vir, entrar e sair, sair e entrar, subir e descer, descer e subir, de onde quiser, para onde quiser, com segurança e liberdade!

Lô Galasso é graduada em Ciências Sociais pela PUC-SP e doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. É professora convidada da Faculdade de Medicina da USP e da Fundação Instituto de Administração da FEA-USP. É autora de Ser mãe é sorrir em parafuso (Ática, 1994), Viagem pelo ombro da minha jaqueta (Ática, 1995), História cabeluda, em co-autoria com Maria Lúcia Mott (Scipione, 1997), Mãos de vento e olhos de dentro (Scipione, 2002) e O trampo, a saúde, o futuro... – trabalho dos adolescentes – Problemas e caminhos para uma vida melhor (Faculdade de Saúde Pública da USP, 2005).

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