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Se você ouve normalmente, ao ler a história da Lisa com certeza aprendeu uma porção de coisas importantes sobre o mundo das pessoas surdas. Se você é surdo ou surda, talvez já conheça boa parte das coisas que são contadas pelo autor.

Ouvir com os olhos...

Sabemos que, em geral, as pessoas escutam com os ouvidos. Mas, na história, Lisa e os pais do Tomás “ouvem” mesmo é com os olhos. A mãe do Tomás quando a campainha, o telefone e o despertador estão tocando porque uma luz se acende nesses aparelhos.

No Brasil, em alguns lugares, como shoppings, existem telefones com teclado e visor. As pessoas usam o teclado para digitar suas mensagens e lêem as respostas no visor. Mas isso só pode acontecer se os telefones usados forem do mesmo tipo. Embora os surdos tenham direito à instalação de aparelhos como esses em lugares que freqüentam, muitos não sabem disso. Então, ainda há muito poucos telefones como esses.

Quanto ao despertador, existe um modelo que é colocado debaixo do travesseiro e que vibra, fazendo a pessoa surda sentir quando é hora de acordar.

É também pelas vibrações que os surdos curtem música. Você já deve ter percebido que, quando o som de um lugar é muito, muito alto, o peito da gente fica “batucando” – vibrando ao ritmo da música. Na história, as crianças que estavam na festa dançavam segurando bexigas, para sentir melhor as vibrações do som.

... falar com as mãos

As pessoas que ouvem aprendem a falar ouvindo os sons da fala dos outros e tentando falar igual, certo? Primeiro o bebezinho diz coisas do tipo “dá”, “mamã”, “papá”... Depois vai ouvindo, ouvindo e aprendendo a falar uma porção de outras palavras, como “bola”, “não”, “eu quero sorvete”... Quando a gente menos espera, o bebê virou uma criança e já fala pelos cotovelos.

E a criança surda, que não pode escutar a própria voz, nem as palavras que seus pais dizem? Como ela pode aprender a falar? Para os surdos, é muito difícil – e muitas vezes impossível – aprender a falar. Por isso, eles aprendem a se comunicar de outras formas. A principal delas é a língua de sinais, que permite a eles ouvir com os olhos e falar com as mãos.

Assim, para as pessoas surdas, a língua materna é a língua de sinais, não importa em que país elas tenham nascido. É quase como se os surdos do mundo todo formassem uma “nacionalidade”, um povo com uma cultura própria. Isso não quer dizer que exista só uma língua de sinais. Existem várias. Na Inglaterra existe a Língua Inglesa de Sinais; na França, a Língua Francesa de Sinais, e assim por diante. Cada país, cada cultura, cria a sua própria língua de sinais. Às vezes, até dentro de um mesmo país existem jeitos diferentes de usar os sinais. No Brasil, temos a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Existe o Hino Nacional em Libras; existem histórias, brinquedos, jogos de memória, dicionário, tudo em Libras.

Você viu que Tomás, mesmo não sendo surdo, conhecia a língua de sinais. Assim, ele podia se comunicar bem com os pais e também ajudá-los quando precisavam conversar com quem não conhecia a língua, como o dentista, por exemplo.
Se não soubesse a língua de sinais, Tomás não teria conseguido se comunicar com Lisa. Isso teria mudado toda a história: Lisa talvez continuasse sozinha, sentada no banco do playground, sem entender o que as outras crianças diziam e sem conseguir se tornar amiga delas. Já pensou?

A Libras e o português

E a língua portuguesa? Como ela se encaixa na vida dos surdos brasileiros? Ela é aprendida como uma segunda língua, depois que a criança aprende a Libras.

Dependendo do tipo de deficiência auditiva, a criança pode usar um aparelhinho que amplifica o som e, assim, aprender a se comunicar em português e até falar. Mas, quando a criança é totalmente surda, aprender a língua portuguesa significa ter muita determinação, desde pequena: passar por um treinamento de muitas horas por dia, durante muitos anos.

Quando as crianças aprendem a Libras e também são treinadas para usar a língua portuguesa, elas ficam sendo “bilíngües”, e então conseguem fazer leitura labial, isto é, conseguem “ler” o que os outros estão falando pelo movimento dos lábios.

No dia-a-dia

Mas vamos pensar em algumas situações que podem acontecer com todo mundo no dia-a-dia. O que acontece quando uma pessoa surda passa mal e precisa ser atendida em um pronto-socorro? Se ela só conseguir se comunicar em Libras e o médico não souber essa língua, como ela vai explicar a ele o que está sentindo? E se um surdo estiver sozinho e for assaltado? Como vai poder explicar para o policial o que lhe aconteceu?

No Brasil, muitas coisas ainda precisam ser feitas para que as pessoas surdas possam ter uma vida melhor. Por exemplo, é preciso que cada vez mais pessoas aprendam a língua de sinais. Outra coisa importante é sempre haver intérpretes de Libras em lugares públicos, empresas, escolas, faculdades etc. Também seria bom que os filmes, os programas de televisão e as peças de teatro fossem traduzidos para a língua de sinais. Dessa forma, os surdos poderiam viver muito melhor. Iriam participar mais do que acontece na sociedade e conviver mais com quem ouve, além de ter acesso a uma quantidade maior de informação e diversão.

Lô Galasso é graduada em Ciências Sociais pela PUC-SP e doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. É professora convidada da Faculdade de Medicina da USP e da Fundação Instituto de Administração da FEA-USP. É autora de Ser mãe é sorrir em parafuso (Ática, 1994), Viagem pelo ombro da minha jaqueta (Ática, 1995), História cabeluda, em co-autoria com Maria Lúcia Mott (Scipione, 1997), Mãos de vento e olhos de dentro (Scipione, 2002) e O trampo, a saúde, o futuro... – trabalho dos adolescentes – Problemas e caminhos para uma vida melhor (Faculdade de Saúde Pública da USP, 2005).

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