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O deficiente visual no Brasil
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O deficiente visual no Brasil
Lô Galasso

Você sabia que este livro foi escrito e ilustrado por alemães? Por que é importante saber isso? Porque algumas coisas da história têm a ver com o jeito como as pessoas vivem na Alemanha, mas não no Brasil. Vamos ver algumas delas?

Faixas e guias

Na história, Matias usa uma faixa amarela no braço, indicando que ele é cego. No Brasil, esse costume não existe. Sabemos que uma pessoa é cega quando usa como guia uma bengala de metal dobrável. Com ela, vai tocando o caminho à sua frente e descobre onde tem um degrau, uma parede... enfim, um obstáculo qualquer. Geralmente, a bengala é uma boa “amiga” e protetora. Mas há certos obstáculos que “se escondem” das bengalas e podem fazer com que as pessoas cegas se machuquem: o orelhão, por exemplo.

Neste livro, Matias conta com a ajuda de Cindy, uma cadela-guia. No Brasil também existem cães-guias, mas é muito difícil ver um. É que por aqui ainda custa muito caro ter um desses cachorros treinados. E há certas pessoas que gostam tanto de cachorros que têm pena de usar um cão-guia.

O dinheiro

Outra coisa bem diferente na Alemanha e no Brasil é o dinheiro. Na história, Matias explica a Catarina que ele consegue saber o valor das moedas porque elas têm formatos e contornos diferentes. E também quanto vale cada nota, porque umas são mais compridas que outras.

No Brasil, as moedas são praticamente iguais, e o mesmo acontece com as notas. Por isso, os cegos não conseguem saber qual nota ou moeda está em sua mão. As moedas são todas redondas e com tamanhos muitos parecidos. Quanto às notas, só a de dez reais (aquela de plástico) pode ser facilmente identificada por uma pessoa cega. Quem me disse isso foi o meu amigo Lothar. E a Andrea me contou que a nota de vinte reais tem um cantinho onde os dedos da gente sentem uma textura diferente. Mas só dá para saber quando a nota é nova. Aprendi também que, no Brasil, as pessoas cegas costumam sair de casa já com o dinheiro separado, para saber quais moedas ou notas devem pegar, em qual bolso, quando têm de pagar alguma coisa.

No semáforo

Neste livro, Matias sabe quando o farol de trânsito (ou semáforo) está verde ou vermelho, ou seja, quando ele pode ou não atravessar uma rua. Você se lembra por quê? O semáforo faz um barulhinho, um tiquetaque, mais lento quando o sinal está vermelho e mais rápido quando está verde. Mas no Brasil não é assim: aqui os faróis ou semáforos ainda são mudos. Por isso, as pessoas que não enxergam só podem atravessar uma rua com a ajuda de alguém.

Relógio e computador

Você se lembra como o Matias consegue saber as horas? Ele abre o vidro do relógio de pulso e, tocando os ponteiros com o dedo, “vê” as horas. No Brasil também existe esse tipo de relógio. Minha amiga Andrea tem um. E há também os relógios digitais, que “falam” as horas.

Tanto na Alemanha quanto no Brasil, as pessoas cegas conseguem usar o computador e navegar na internet, porque existem programas que “falam” tudo o que vem escrito na tela.

Andar de metrô

Matias explica a Catarina que, na Alemanha, com a ajuda da bengala, os cegos podem encontrar o caminho da rua para o metrô e do metrô de volta para a rua, por causa de uma faixa em alto-relevo que existe no chão. No Brasil, esse tipo de “trilha” em relevo só existe em uma ou outra estação de metrô. Ainda falta muito para que todas as estações tenham uma faixa dessas.

Enfim, por aqui ainda vai levar algum tempo até que os deficientes visuais circulem com tranqüilidade pelas ruas e outros lugares das cidades. E também para que possam curtir melhor uma porção de coisas bacanas, como obras de arte, teatro, cinema etc.

Mas é importante saber que no mundo há muita gente tentando melhorar as cidades e descobrir jeitos de garantir que todas as pessoas façam tudo o que precisam e curtam tudo o que tenham vontade.

Como o próprio Matias explica no livro, os deficientes visuais podem fazer praticamente tudo o que as outras pessoas fazem, desde que tenham algum apoio para isso. Por exemplo, muitas pessoas cegas, ou que enxergam muito pouco, adoram praticar esportes e participam de campeonatos no Brasil e no exterior. Meu amigo Lothar, mesmo, é presidente de uma associação, a Cadevi, de apoio a deficientes visuais que praticam esportes. Lá eles têm uma coleção enorme de troféus: de futebol, natação, atletismo, xadrez... E muitos cegos fazendo coisas que, às vezes, dão o maior medo nas pessoas que enxergam, como descer cachoeiras altíssimas fazendo rapel.

Pois é... Se você antes pensava, como a Catarina, que os deficientes visuais não são capazes de fazer quase nada, com certeza vai mudar de idéia depois de ler este livro.

Não é só com os olhos do rosto que as pessoas podem enxergar. Há também os “olhos” da audição, do tato, do paladar, do olfato, além dos “olhos de dentro”, os “olhos do coração”: a inteligência, a imaginação, a sensibilidade, a intuição, a vontade, a coragem... Olhos poderosos que permitem a todas as pessoas realizar seus sonhos. Inclusive aquelas que, mesmo cegas, enxergam muito, e longe!

Lô Galasso é graduada em Ciências Sociais pela PUC-SP e doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. É professora convidada da Faculdade de Medicina da USP e da Fundação Instituto de Administração da FEA-USP. É autora de Ser mãe é sorrir em parafuso (Ática, 1994), Viagem pelo ombro da minha jaqueta (Ática, 1995), História cabeluda, em co-autoria com Maria Lúcia Mott (Scipione, 1997), Mãos de vento e olhos de dentro (Scipione, 2002) e O trampo, a saúde, o futuro... – trabalho dos adolescentes – Problemas e caminhos para uma vida melhor (Faculdade de Saúde Pública da USP, 2005).

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