Para
a professora Marifátima, um dos aspectos
que costumam dificultar o processo de ensino
e aprendizagem das crianças com deficiência
visual é o preconceito – inclusive
dos próprios pais, ainda que de forma
inconsciente. No intuito de proteger as
crianças, muitas vezes eles acabam
por superprotegê-las: deixam de impor
limites, fazem as atividades no lugar da
criança, impedem que elas se movimentem
com liberdade e que adquiram experiências
de caráter sensorial, etc.
Nesses casos, é tarefa do educador
também trabalhar a relação
entre pais e filhos, estimulando as crianças
a transmitir aos próprios pais a
mensagem de que eles devem apostar em suas
possibilidades e potencialidades. Segundo
Marifátima, isso faz um enorme bem
à auto-estima das crianças.
Quanto à inclusão de alunos
com deficiência visual na rede de
ensino regular, Marifátima acredita
que as escolas deveriam contar com profissionais
especializados, dedicados a preparar materiais
didáticos próprios para a
aprendizagem dessas crianças. Ela
cita como exemplo a sala de recursos do
tradicional Colégio Caetano de Campos,
em São Paulo, dirigida pela professora
Auta, também ligada ao Instituto
Padre Chico.
Marifátima explica que trabalha com
alguns tipos de materiais, usados para as
crianças tatearem, e desenvolve junto
com elas outros que permitem a construção
de imagens mentais de elementos do cotidiano
e o conhecimento baseado em situações
concretas. Para a professora, é importante
o educador recorrer a imagens em relevo,
criadas a partir de materiais simples –
como formas recortadas em feltro, barbante
colado e tinta relevo usados para representar
linhas e contornos, materiais e texturas
diferentes para trabalhar discriminação
e permitir classificação,
etc.
Mas lembra que é preciso ter cuidado
na maneira como se oferece ou se entrega
um objeto a uma criança pequena que
tenha deficiência visual. Esses materiais
devem sempre ser dirigidos ao centro do
corpo do jovem, para não restringir
sua liberdade de pegá-lo com a mão
direita ou esquerda, segundo sua tendência
natural.
Marifátima expressa preocupação
com a falta de treinamento dos educadores
e de adaptações necessárias
nos espaços e programas das escolas
regulares para uma efetiva inclusão
das crianças com deficiência.
Ela cita o caso de um aluno que cursa a
primeira série do Ensino Fundamental
no Instituto Padre Chico e, por iniciativa
da mãe, também freqüenta
uma classe de escola regular. O problema
é que a forma como o aluno está
sendo tratado tem exercido efeitos extremamente
negativos em sua auto-estima. Ele relata
que, além de ser alvo freqüente
de gozação por parte dos colegas,
passa praticamente todo o tempo deitado
na carteira, sem ter o que fazer.
Marifátima conclui seu depoimento
dizendo que todas as partes envolvidas no
processo de ensino e aprendizagem das crianças
com necessidades especiais seriam muito
beneficiadas se houvesse maior oportunidade
de compartilhamento de experiências
e informações entre os educadores. |
Marifátima
Coleone Nunes é graduada
em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras São Marcos,
com habilitação em Ensino
de Pessoas com Deficiência Visual
pela USP. Há cerca de quinze anos
dedica-se a alfabetizar crianças
com deficiência visual, atuando como
professora no Instituto Padre Chico. É
também professora polivalente em
uma escola particular do município
de São Paulo. |