Depoimentos
 
OUTROS DEPOIMENTOS
Teresa Beatriz Cardoso Oliveira
Rosa Maria Antunes de Barros
Marifátima Coleone Nunes
 
 
 

Marifátima Coleone Nunes

Para a professora Marifátima, um dos aspectos que costumam dificultar o processo de ensino e aprendizagem das crianças com deficiência visual é o preconceito – inclusive dos próprios pais, ainda que de forma inconsciente. No intuito de proteger as crianças, muitas vezes eles acabam por superprotegê-las: deixam de impor limites, fazem as atividades no lugar da criança, impedem que elas se movimentem com liberdade e que adquiram experiências de caráter sensorial, etc.

Nesses casos, é tarefa do educador também trabalhar a relação entre pais e filhos, estimulando as crianças a transmitir aos próprios pais a mensagem de que eles devem apostar em suas possibilidades e potencialidades. Segundo Marifátima, isso faz um enorme bem à auto-estima das crianças.

Quanto à inclusão de alunos com deficiência visual na rede de ensino regular, Marifátima acredita que as escolas deveriam contar com profissionais especializados, dedicados a preparar materiais didáticos próprios para a aprendizagem dessas crianças. Ela cita como exemplo a sala de recursos do tradicional Colégio Caetano de Campos, em São Paulo, dirigida pela professora Auta, também ligada ao Instituto Padre Chico.

Marifátima explica que trabalha com alguns tipos de materiais, usados para as crianças tatearem, e desenvolve junto com elas outros que permitem a construção de imagens mentais de elementos do cotidiano e o conhecimento baseado em situações concretas. Para a professora, é importante o educador recorrer a imagens em relevo, criadas a partir de materiais simples – como formas recortadas em feltro, barbante colado e tinta relevo usados para representar linhas e contornos, materiais e texturas diferentes para trabalhar discriminação e permitir classificação, etc.

Mas lembra que é preciso ter cuidado na maneira como se oferece ou se entrega um objeto a uma criança pequena que tenha deficiência visual. Esses materiais devem sempre ser dirigidos ao centro do corpo do jovem, para não restringir sua liberdade de pegá-lo com a mão direita ou esquerda, segundo sua tendência natural.

Marifátima expressa preocupação com a falta de treinamento dos educadores e de adaptações necessárias nos espaços e programas das escolas regulares para uma efetiva inclusão das crianças com deficiência.

Ela cita o caso de um aluno que cursa a primeira série do Ensino Fundamental no Instituto Padre Chico e, por iniciativa da mãe, também freqüenta uma classe de escola regular. O problema é que a forma como o aluno está sendo tratado tem exercido efeitos extremamente negativos em sua auto-estima. Ele relata que, além de ser alvo freqüente de gozação por parte dos colegas, passa praticamente todo o tempo deitado na carteira, sem ter o que fazer.

Marifátima conclui seu depoimento dizendo que todas as partes envolvidas no processo de ensino e aprendizagem das crianças com necessidades especiais seriam muito beneficiadas se houvesse maior oportunidade de compartilhamento de experiências e informações entre os educadores.
Marifátima Coleone Nunes é graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras São Marcos, com habilitação em Ensino de Pessoas com Deficiência Visual pela USP. Há cerca de quinze anos dedica-se a alfabetizar crianças com deficiência visual, atuando como professora no Instituto Padre Chico. É também professora polivalente em uma escola particular do município de São Paulo.
Editora Scipione Ltda - todos os direitos reservados