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"A convivência com alunos deficientes é proveitosa para todos"
Flávia Maria de Paiva Vital

“Meu trabalho é basicamente intelectual. Ora, para que preciso de meu corpo funcionando corretamente?”
Eduardo Farias
“Cabe ao deficiente mostrar que é uma pessoa como as outras, com todos os problemas comuns”
Lothar Antenor Bazanella
“Considero primordial essa iniciativa, pois todos nós devemos colaborar para a inclusão”
Maria Cecília Araújo Magri
 
 

“Cabe ao deficiente mostrar que é uma pessoa como as outras, com todos os problemas comuns”

Lothar Antenor Bazanella
Gaúcho da zona rural de Roca Sales, Lothar Antenor Bazanella é o presidente do Cadevi – Centro de Apoio ao Deficiente Visual (http://www.cadevi.org.br), entidade que visa desenvolver e divulgar a capacidade dos deficientes visuais por meio de atividades socioculturais, educacionais, esportivas e de lazer. Além disso, Lothar escreve, especialmente poesias, e dedica-se a compor músicas para o Guyrá (pássaro, em tupi), um quarteto de música raiz de que faz parte (http://www.guyra.com.br).

“Perdi a visão aos 5 anos num acidente com arma de fogo”, conta Lothar, um dos pioneiros, na América Latina, na atividade de programação de computadores. Em janeiro de 1973 veio a São Paulo para fazer um curso de programação de computadores para cegos no IBIS – Instituto Brasileiro de Incentivos Sociais. Nessa época, só havia dois programadores cegos no Brasil, que decidiram repassar sua experiência a outros cegos.

Nesta entrevista, Lothar Antenor Bazanella trata de temas como a integração de crianças e jovens no ambiente educacional, a capacidade dos educadores em lidar com situações especiais e a pertinência do projeto “Igualdade na Diferença”.

Como observa o sentido da proposta do “Igualdade na Diferença”? Você poderia mencionar algum exemplo concreto de pertinência desse projeto a partir de sua experiência no Cadevi?
Lothar Antenor Bazanella: No Cadevi atendemos apenas deficientes visuais a partir de 10 anos de idade, diferentemente das escolas que se propõem a serem inclusivas e que, para isso, precisam estar preparadas para receber alunos com diversos tipos de deficiência.

Nossas atividades são voltadas para atender deficientes visuais, mas, sempre que possível, pessoas com visão normal também participam. Nossos atletas correm acompanhados por guias que enxergam; os goleiros do futsal também enxergam, assim como grande parte dos integrantes do coral e das aulas de condicionamento físico e de artesanato. A restrição que por vezes fazemos no curso de informática se deve unicamente ao pequeno número de vagas. Como quem enxerga encontra cursos a cada esquina, damos preferência aos deficientes. No mais, priorizamos sempre a integração.

É satisfatório o quadro atual de integração de crianças e jovens com necessidades especiais no ambiente educacional?
Lothar: Confesso que vejo com reservas a proposta da inclusão. Acontece que saímos de um modelo segregacionista para um totalmente aberto, em que a escola é obrigada a atender alunos com qualquer deficiência, inclusive com múltiplas. Penso que atribuir todos os méritos a esse modelo é cometer o mesmo erro dos que apedrejam aquele.

Não sou educador; logo, não seria a pessoa mais indicada para falar sobre um projeto com tamanha amplitude. De qualquer forma, valho-me da experiência de quem estudou numa escola especial para emitir minha opinião.

A escola em que estudei também admitia alunos com visão normal. Tínhamos todas as aulas juntos. Nos dividíamos apenas nas atividades extraclasse, como jogar futebol. Éramos tratados diferentemente apenas quando a atividade o exigia.

Em geral, o deficiente participa apenas de atividades dentro da sala de aula, ficando à margem das demais. E integrar (prefiro integrar a incluir) é muito mais que isso. O convívio com colegas com as mesmas limitações favorece o desenvolvimento do deficiente. Até o bater e apanhar, tão comum entre coleguinhas, deve fazer parte do dia-a-dia do deficiente. Agora, imagina uma criança normal batendo num colega com deficiência...

Por isso, defendo a idéia da escola especial aberta, pelo menos para os três ou quatro anos iniciais, quando o aluno necessita de maior atenção. Melhor preparado, ele superará mais facilmente as dificuldades que encontrar nas escolas comuns. Geralmente, tenho sido voto vencido nos debates de que participo, mas penso que o tempo demonstrará que o meio-termo é a melhor solução.

Na sua opinião, os educadores estão evoluindo em sua capacidade de lidar com essas situações especiais?
Lothar: É inegável a evolução dos métodos de ensino e dos recursos técnicos nessa área, mas para quem conhece um pouco as condições de trabalho da maior parte dos nossos educadores, fica difícil imaginar alguém capaz de atender razoavelmente diversos alunos com as mais diversas deficiências, cada uma com suas especificidades.

Mesmo com o apoio de salas de recursos especiais, o educador precisaria conhecer braile, libras [Língua Brasileira de Sinais], tadoma [técnica de comunicação baseada na vibração da voz] e saber como se comunicar com um deficiente mental, um autista etc. Ainda não conheço ninguém com esse perfil.

E a sociedade brasileira como um todo, vem acompanhando esse debate sobre inclusão?
Lothar: A freqüente presença de deficientes em novelas, competições esportivas e até mesmo comerciais é um indício disso. Claro que nem sempre a abordagem da deficiência é a mais indicada, mas serve para desmistificar alguns tabus.

Não raro, pessoas se oferecem para me ajudar dizendo que viram na tevê a forma correta de oferecer ajuda a um deficiente. Cabe ao deficiente, em seu convívio diário, mostrar que é uma pessoa como as outras, com todos os problemas comuns, mais os decorrentes da deficiência.

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