Gaúcho
da zona rural de Roca Sales, Lothar Antenor
Bazanella é o presidente do Cadevi
– Centro de Apoio ao Deficiente Visual
(
http://www.cadevi.org.br),
entidade que visa desenvolver e divulgar
a capacidade dos deficientes visuais por
meio de atividades socioculturais, educacionais,
esportivas e de lazer. Além disso,
Lothar escreve, especialmente poesias, e
dedica-se a compor músicas para o
Guyrá (pássaro, em tupi),
um quarteto de música raiz de que
faz parte (
http://www.guyra.com.br).
“Perdi a visão aos 5 anos
num acidente com arma de fogo”,
conta Lothar, um dos pioneiros, na América
Latina, na atividade de programação
de computadores. Em janeiro de 1973 veio
a São Paulo para fazer um curso
de programação de computadores
para cegos no IBIS – Instituto Brasileiro
de Incentivos Sociais. Nessa época,
só havia dois programadores cegos
no Brasil, que decidiram repassar sua
experiência a outros cegos.
Nesta entrevista, Lothar Antenor Bazanella
trata de temas como a integração
de crianças e jovens no ambiente
educacional, a capacidade dos educadores
em lidar com situações especiais
e a pertinência do projeto “Igualdade
na Diferença”.
Como
observa o sentido da proposta do “Igualdade
na Diferença”? Você
poderia mencionar algum exemplo concreto
de pertinência desse projeto a partir
de sua experiência no Cadevi?
Lothar Antenor
Bazanella: No Cadevi atendemos
apenas deficientes visuais a partir de
10 anos de idade, diferentemente das escolas
que se propõem a serem inclusivas
e que, para isso, precisam estar preparadas
para receber alunos com diversos tipos
de deficiência.
Nossas atividades são voltadas
para atender deficientes visuais, mas,
sempre que possível, pessoas com
visão normal também participam.
Nossos atletas correm acompanhados por
guias que enxergam; os goleiros do futsal
também enxergam, assim como grande
parte dos integrantes do coral e das aulas
de condicionamento físico e de
artesanato. A restrição
que por vezes fazemos no curso de informática
se deve unicamente ao pequeno número
de vagas. Como quem enxerga encontra cursos
a cada esquina, damos preferência
aos deficientes. No mais, priorizamos
sempre a integração.
É
satisfatório o quadro atual de
integração de crianças
e jovens com necessidades especiais no
ambiente educacional?
Lothar:
Confesso que vejo com reservas a proposta
da inclusão. Acontece que saímos
de um modelo segregacionista para um totalmente
aberto, em que a escola é obrigada
a atender alunos com qualquer deficiência,
inclusive com múltiplas. Penso
que atribuir todos os méritos a
esse modelo é cometer o mesmo erro
dos que apedrejam aquele.
Não sou educador; logo, não
seria a pessoa mais indicada para falar
sobre um projeto com tamanha amplitude.
De qualquer forma, valho-me da experiência
de quem estudou numa escola especial para
emitir minha opinião.
A escola em que estudei também
admitia alunos com visão normal.
Tínhamos todas as aulas juntos.
Nos dividíamos apenas nas atividades
extraclasse, como jogar futebol. Éramos
tratados diferentemente apenas quando
a atividade o exigia.
Em geral, o deficiente participa apenas
de atividades dentro da sala de aula,
ficando à margem das demais. E
integrar (prefiro integrar a incluir)
é muito mais que isso. O convívio
com colegas com as mesmas limitações
favorece o desenvolvimento do deficiente.
Até o bater e apanhar, tão
comum entre coleguinhas, deve fazer parte
do dia-a-dia do deficiente. Agora, imagina
uma criança normal batendo num
colega com deficiência...
Por isso, defendo a idéia da escola
especial aberta, pelo menos para os três
ou quatro anos iniciais, quando o aluno
necessita de maior atenção.
Melhor preparado, ele superará
mais facilmente as dificuldades que encontrar
nas escolas comuns. Geralmente, tenho
sido voto vencido nos debates de que participo,
mas penso que o tempo demonstrará
que o meio-termo é a melhor solução.
Na
sua opinião, os educadores estão
evoluindo em sua capacidade de lidar com
essas situações especiais?
Lothar:
É inegável a evolução
dos métodos de ensino e dos recursos
técnicos nessa área, mas
para quem conhece um pouco as condições
de trabalho da maior parte dos nossos
educadores, fica difícil imaginar
alguém capaz de atender razoavelmente
diversos alunos com as mais diversas deficiências,
cada uma com suas especificidades.
Mesmo com o apoio de salas de recursos
especiais, o educador precisaria conhecer
braile, libras [Língua Brasileira
de Sinais], tadoma [técnica de
comunicação baseada na vibração
da voz] e saber como se comunicar com
um deficiente mental, um autista etc.
Ainda não conheço ninguém
com esse perfil.
E
a sociedade brasileira como um todo, vem
acompanhando esse debate sobre inclusão?
Lothar:
A freqüente presença de deficientes
em novelas, competições
esportivas e até mesmo comerciais
é um indício disso. Claro
que nem sempre a abordagem da deficiência
é a mais indicada, mas serve para
desmistificar alguns tabus.
Não raro, pessoas se oferecem para
me ajudar dizendo que viram na tevê
a forma correta de oferecer ajuda a um
deficiente. Cabe ao deficiente, em seu
convívio diário, mostrar
que é uma pessoa como as outras,
com todos os problemas comuns, mais os
decorrentes da deficiência.