Caro professor,

Chega ao fim este nosso diálogo virtual sobre alfabetização e letramento, iniciado em março de 2007, dirigido especialmente àqueles que atuam com crianças que ingressam no ensino fundamental aos seis anos de idade. É muito interessante como as coisas acontecem em tempos de internet: não nos conhecemos, mas eu entrei nas casas e nas escolas de vocês, e vocês adentraram os meus pensamentos, passando a fazer parte de minha vida, sem sequer nos encontrarmos presencialmente uma única vez.

Vocês passaram a fazer parte de minha vida porque, para escrever os artigos e responder às perguntas do podcast, eu tinha que ter sempre presente uma representação desses leitores virtuais. Não sei se o verdadeiro interlocutor dos artigos é aquele que povoa o meu imaginário. Só sei que o meu diálogo era com um professor comprometido com a própria formação, preocupado com a aprendizagem das crianças, aberto às possibilidades trazidas pelas novas conquistas educacionais; era com alguém que vê a si mesmo como mediador cultural, capaz de operar transformações em seus alunos e no meio em que vive.

O retorno que tenho, atestando a validade e a importância do nosso trabalho, e também o interesse dos professores pela temática, tem se dado por meio das numerosas entradas no Projeto Alfabetização e Letramento, no site da Editora Scipione, e pelos e-mail recebidos.

Quando esse projeto teve inicio, a entrada da criança de seis anos como um novo ator na escolaridade formal ainda era uma inovação, que gerava muitas polêmicas. Passado mais de um ano, alguns professores já se adequaram à nova situação e outros ainda resistem, das mais diversas formas.

Nos sete artigos do projeto, e nos respectivos podcasts, procuramos refletir sobre o trabalho com a criança de seis anos não apenas numa perspectiva escolarizada, mas vendo-a como um sujeito que está adentrando o mundo e se inserindo na cultura letrada de forma mais sistematizada.

É verdade que essa criança já viveu inúmeras experiências no âmbito familiar, na comunidade e, em muitos casos, em instituições de educação infantil. Sem dúvida alguma, as experiências devem ser levadas em conta. Porém, o que procuramos deixar claro é que a educação infantil, não sendo uma etapa obrigatória da educação básica, não pode garantir os pré-requisitos que muitos professores ainda esperam que a criança tenha construído antes de seu ingresso no ensino fundamental.

A abordagem adotada no projeto procurou privilegiar alguns princípios que, do meu ponto de vista, devem direcionar a ação alfabetizadora daqueles que atuam com crianças de seis anos, tais como:

• o direito de todas as crianças a uma educação de qualidade e ao acesso ao conhecimento, sem perder de vista as necessidades e especificidades da faixa etária;

• a defesa de um maior tempo de escolarização, de modo que o ingresso aos seis anos no ensino fundamental não seja visto como uma forma de antecipação da alfabetização, mas como a ampliação das possibilidades da criança de aprender e estabelecer trocas socioculturais;

• a constatação de que o processo de alfabetização não pode estar dissociado das demais aprendizagens das crianças, devendo levar em conta seu momento peculiar de desenvolvimento;

• uma concepção de aprendizagem/desenvolvimento fundamentada na idéia de que a aquisição do conhecimento ocorre no mundo social e de que o indivíduo, nas relações que estabelece com outros sujeitos, apropria, transforma e cria saberes;

• uma visão da criança como ser ativo, produtor de conhecimento, e não apenas como consumidor passivo de conhecimentos produzidos por outros;

• o entendimento de que a criança, nessa faixa etária, está em pleno processo de aprendizagem/desenvolvimento das várias linguagens, inclusive do brincar, e de que, embora muito importante, a linguagem escrita não constitui a única forma de a criança construir significados e se inserir na cultura.

• uma concepção de aquisição da linguagem escrita como parte do processo de letramento, isto é, de um aprendizado que se dá nas práticas sociais reais da leitura e da escrita vivenciadas pelas crianças e que, portanto, não se restringe ao domínio do código;

• uma visão de ensino da linguagem escrita, enquanto ação intencional do professor, que deve ser explicitada nas propostas pedagógicas das instituições de ensino fundamental.

• o reconhecimento de que o fato de as crianças ingressarem no ensino fundamental aos seis anos não significa que elas tenham que deixar de ser crianças para se transformar em alunos;

• a importância da avaliação diagnóstica, para que o professor possa saber o que a criança já conhece e aquilo que ela ainda necessita aprender.

• o entendimento do erro como parte do processo de alfabetização, que, por essa razão, deve ser diagnosticado e trabalhado de forma construtiva.

Espero que essas e outras questões tenham sido compreendidas e que possam ser desenvolvidas na continuidade de seus trabalhos.

Pela grande aceitação do projeto Alfabetização e Letramento, estamos trabalhando na perspectiva de sua ampliação e aprofundamento, na intenção de transformá-lo em livro, a ser editado ainda em 2008.

Para os professores de educação infantil, comunicamos que a professora Fátima Salles e eu estamos lançando pela Editora Scipione o livro Currículo na educação infantil: diálogo com os demais elementos da proposta pedagógica.

Bons estudos, bom trabalho com as crianças e um grande abraço,

Vitória L. B. de Faria